
No BrokenLore: UNFOLLOW, as redes sociais são muito mais perigosas do que você imagina

"São sempre aqueles que estão mais próximos de você que podem te machucar mais." Essa frase costumava ser dita só sobre seu círculo íntimo de familiares e amigos, mas agora, graças ao smartphone, o significado dela se expandiu para muito além. Milhares de desconhecidos podem ignorar convenções sociais e encher de mensagens o dispositivo que está no seu bolso. E, como sugere o BrokenLore: UNFOLLOW:, eles nem sempre têm boas intenções.
Ao colaborar com criadores de conteúdo em outros projetos, Sebastiano Serafini, fundador da Serafini Productions, percebeu que muitos projetavam uma persona pública tranquila para esconder o peso psicológico sofrido em interações com desconhecidos anônimos. Essa constatação serviu de base pro desenvolvimento do último título da série BrokenLore, que aborda questões sociais reais através das lentes do terror sobrenatural.

"Vistas de fora, essas pessoas parecem levar vidas perfeitas. Só que a verdade é que elas lidam com muita pressão, ansiedade e insegurança", diz Serafini. "Queríamos explorar não apenas a perspectiva dos criadores, mas também daqueles que consomem conteúdo e são influenciados pelo que veem na internet."
BrokenLore: UNFOLLOW explora essa questão através dos olhos de Anne, uma jovem que cresce em um mundo que não a aceita do jeito que ela é. A vida dela tem sido definida pelo bullying que sofre por conta do peso. As provocações dos colegas de escola ecoam na mente dela, e os insultos deles se manifestam por escrito na pele da garota. Ela pega uma caixa de leite de uma porta fechada com cadeado, e o inventário mostra a tabela de calorias.
Anne é forçada a enfrentar suas inseguranças mais profundas quando acorda presa em sua própria casa com a mãe, uma figura mascarada psicótica que dá ordens, e um verme-quimera rastejante que bate a cabeça na mesa de jantar exigindo ser alimentado. Esses monstros são perturbadores e horríveis, mas fáceis de reconhecer. "Queríamos que nossos monstros tivessem um aspecto aterrorizante, mas que também tivessem emoções bem delineadas, como se houvesse algo humano por trás deles", diz Serafini.

As redes sociais são, sem dúvida, uma área que os jogos ainda precisam dominar. Embora a VIDEOVERSE tenha feito um bom trabalho recriando uma era mais inocente de fóruns de jogos do Miiverse, BrokenLore: UNFOLLOW tenta confrontar o impacto das mídias sociais de hoje em dia e a natureza onipresente que elas possuem. A realidade e as redes sociais se mesclam em BrokenLore: UNFOLLOW. É difícil não sentir o julgamento de uma multidão on-line quando a contagem de seguidores de Anne aparece sem aviso prévio, diminuindo ou aumentando, toda vez que ela pega um item.
Serafini me explica que os níveis posteriores, brevemente vistos no trailer, mostram o verdadeiro poder daquele dispositivo, que fornece conexão por um preço. Anne dispara um fraco feixe de luz do celular numa tentativa desesperada de espantar os monstros que avançam. "O celular se torna tanto uma ferramenta narrativa quanto simbólica", explica ele, uma metáfora para o poder das palavras transmitidas pelas redes sociais. "Em certos locais, ele pode ser usado como arma contra manequins sem rosto, que representam os trolls da internet — pessoas que atacam outras sem revelar a identidade."
Trazendo um tópico muito real, os temas de BrokenLore: UNFOLLOW fazem o público se identificar de forma dolorosa. Para garantir uma abordagem bem-informada deste tópico tão sensível, a equipe contou com o testemunho pessoal de criadores de conteúdo como Akidearest e Suzi Hunter, além da competência profissional da psicóloga Dra. Emanuela Papa.

O Silent Hill f recentemente tratou tópicos semelhantes, mas usando o Japão dos anos 1960 como pano de fundo para mostrar o bullying, diferente do cenário contemporâneo de BrokenLore: UNFOLLOW. Sendo um italiano que mora em Tóquio, Serafini vê Silent Hill como uma franquia-irmã, que explora o terror em uma variedade de culturas e locais. É exatamente isso que sua equipe planeja fazer no Japão, na Europa e na América nos próximos lançamentos de BrokenLore.
Na opinião de Serafini, não há dúvidas de que valeu a pena o cuidado e o esforço com uma temática tão desafiadora.
"Questões sociais reais já carregam muito medo, ansiedade e peso emocional. O terror nos permite externalizar esses sentimentos e dar a eles uma forma que os jogadores possam confrontar", diz ele.
Todos nós já tivemos momentos em que sentimos bater a solidão, em que sofremos com o bullying, com a pressão social e com o medo de sermos excluídos. Embora isolar o jogador seja uma tática comum para provocar medo, a Serafini Productions espera o efeito oposto: aliviar esse peso através da certeza de que se trata de uma experiência compartilhada por muitos.

"Queremos que nossos jogos sejam inquietantes, mas também que gerem reflexões. Assim, buscamos encorajar os jogadores a pensar sobre as próprias experiências. Talvez eles se sintam menos sozinhos pra enfrentar aquilo pelo qual estão passando", ele explica. BrokenLore: UNFOLLOW não é exceção.
"Espero que BrokenLore: UNFOLLOW possa ser uma forma de apoio ou empoderamento silencioso para pessoas que enfrentam dificuldades semelhantes. É importante falar abertamente sobre esses tópicos e procurar ajuda profissional quando necessário. Enfrentar nossos demônios é difícil, mas é algo que não precisamos fazer sozinhos."
BrokenLore: UNFOLLOW já está disponível na Epic Games Store.