Novidades

Como Discounty desafia astutamente a aparência aconchegante de uma megaloja

S
Steven Nguyen Scaife
6 de jan. de 2026

"Ninguém quer que um supermercado controle a cidade", afirma Anne Christina Elsberg, escritora e cofundadora da Crinkle Cut Games. É uma declaração surpreendente vinda de alguém que acaba de lançar um jogo sobre, literalmente, administrar um supermercado. No entanto, Discounty, o primeiro título do estúdio dinamarquês, não se resume à satisfação de organizar prateleiras ou ouvir aquele barulhinho satisfatório da gaveta da caixa registradora. Há protestos por disputas de propriedade. As demissões ocorrem sem cerimônia. Aparecem depósitos ilegais de resíduos. Além, é claro, da típica burocracia de cidade pequena.

Com personagens cabeçudos, cores vivas e música alegre, Discounty é e não é o que parece à primeira vista. Sim, o jogo é aconchegante, as dinâmicas de finanças são tranquilas e o objetivo é simplesmente administrar um negócio da melhor forma, a pedido de sua empreendedora tia Tellar. Porém, isso também cria um contexto menos acolhedor para o negócio: a rápida expansão do seu supermercado pode prejudicar a história de Blomkest, uma pequena cidade portuária que já viveu dias melhores.

Cada dia no jogo é cronometrado. Antes da abertura e após o fechamento de Discounty, há um breve intervalo para tarefas como solicitar estoque, descarregar caixas de entrega e, de maneira geral, ajustar o visual da loja para maximizar o apelo de determinados produtos. Quando os clientes começam a chegar, você deve atendê-los o mais rápido possível e ficar de olho nas prateleiras que precisam ser reabastecidas ou nas possíveis confusões que impedem a circulação das pessoas.
Leitor de código de barras
Embora a caixa registradora pareça apenas uma entre tantas outras tarefas, que pode ser melhorada com um leitor de código de barras mais rápido, nela nasceu a ideia de Discounty. Enquanto estudava Design de Experiência do Usuário na Universidade de TI de Copenhague, Anne jogou Dillon's Dead-Heat Breakers, um jogo de 2018 para Nintendo 3DS com uma missão secundária notável de inserir preços na caixa registradora e abastecer prateleiras dando toques na tela. 

Na época, os jogos de gerenciamento de loja como Moonlighter e Recettear: An Item Shop's Tale utilizavam elementos do gênero de combate para a coleta de itens. No entanto, em Dillon's Dead-Heat Breakers, Anne percebeu que as atividades mais rotineiras, como processar números, eram intrinsecamente satisfatórias e podiam sustentar um jogo por si só. 

"Mostrei essa ideia para um dos meus colegas da turma, que se empolgou na hora. Teve um semestre em que participei de uma pesquisa científica sobre a nova tendência daquela época, os jogos aconchegantes, e criamos um protótipo básico do jogo em um curso de programação para designers. Quando chegamos na tese, quisemos dar uma chance real ao conceito e nos juntamos com um programador de verdade para ajudar a concretizar a visão."
Tela de pedidos
As imagens do protótipo inicial e o projeto de tese ampliado estão disponíveis na página do YouTube do estúdio. A equipe da Crinkle Cut Games é pequena e foi criada para transformar aquele projeto de tese em um lançamento comercial: Discounty. Após a formatura, apresentaram o protótipo ao fundo público para jogos do Instituto de Cinema da Dinamarca e assim conseguiram trabalhar em tempo integral no desenvolvimento do jogo por dois anos. Um acordo de publicação com a PQube prolongou a produção por mais um ano.

Todos os membros da equipe já tiveram algum trabalho no setor de serviços. Blomkest, a cidade do jogo, é baseada em uma cidade portuária próxima de onde a Anne cresceu. Para compreender melhor a temática, os desenvolvedores fizeram uma pesquisa minuciosa, como explicou a Anne: "Acredito de verdade que dá para encontrar interações e mecânicas incríveis na vida real. Por isso, como parte do projeto de Discounty, visitamos um supermercado local e entrevistamos o proprietário para saber como eles projetam os espaços, organizam o depósito e outras coisas. Uma coisa que nos chamou a atenção foi o espaço que o gerenciamento de resíduos e embalagens ocupava no depósito, o que nos inspirou a tornar a logística e a reciclagem partes essenciais da dinâmica da loja do jogo."

As entrevistas que fizeram também ajudaram a criar uma das personagens mais proeminentes do jogo, uma idosa chamada senhora Andersen. "Fomos convidados a visitar a loja antes do horário de funcionamento. Cinco minutos antes de abrir, uma senhora estava batendo nas portas de correr para entrar e pegar a sua revista semanal de fofoca. Era perfeito demais para não incluir isso." Todos os habitantes da cidade do jogo têm nomes e personalidades, além de seus próprios horários, de acordo com o relógio do jogo. Diariamente, a Sra. Andersen é a primeira a chegar na loja. Se você estiver passeando por Blomkest antes da abertura, poderá observá-la caminhando até lá e aguardando do lado de fora. Muitos personagens são comerciantes e alguns, como o pescador local, são fornecedores de produtos que podem ser revendidos em Discounty, após certa negociação, é claro.
Fornecedor
As pesquisas no edifício do supermercado parece que foram as mais proveitosas. Apesar de ser parte de uma grande rede, a loja tinha uma estrutura que não se adequava ao projeto preferido pela empresa. Anne explicou que o lugar era um antigo cinema, e que eles tiveram que transformar tudo em um supermercado: "o estilo padrão precisou ser adaptado em torno das colunas estruturais que não podiam ser removidas". Isso acabou definindo como Discounty seria: em vez de remodelar o mundo como querem, os jogadores devem operar dentro de um espaço com uma história prévia, que pode oferecer resistência.

Em momentos do jogo, os cidadãos podem expressar descontentamento em uma ida ao supermercado ou protestar do lado de fora de Discounty. Você está no comando das operações do dia a dia, mas a tia Tellar ainda toma as grandes decisões nos bastidores, e muitas medidas provocam a ira dos habitantes.

O papel da Tellar na história é bem prático, de certa forma. A equipe carecia de recursos para desenvolver um enredo complexo e ramificado além da simulação de negócios. Anne comentou que também não queriam os jogadores assumindo o papel de benfeitor, para fazer jus às consequências negativas inerentes a um crescimento ilimitado. A tia Tellar não é uma vilã propriamente dita. Ela acredita sinceramente que a única maneira de colocar Blomkest de volta no mapa é com a construção de Discounty. Mas ela não é muito acessível. Por exemplo, ninguém te avisa que atingir determinada meta de financiamento vai expandir o negócio às custas da falência de uma loja de chá próxima. Anne contou: "A maioria dos jogadores não quer ser vilão, mas uma das principais mensagens de Discounty é que até as boas intenções podem levar a consequências negativas. Basicamente, tivemos que diminuir a autonomia dos jogadores, permitindo que expressem suas objeções."

O resultado é um delicado equilíbrio, já que Discounty ainda deve funcionar como um jogo aconchegante. Desenvolver o aspecto comercial da jogabilidade significou decidir quais elementos da experiência do mundo real replicar e quais deixar de fora. Os preços são predefinidos para dar suporte às mecânicas da caixa registradora baseadas em memória. A equipe tentou incluir datas de validade, mas as tarefas adicionais acabavam prejudicando o fluxo do jogo.
Caixa registradora
No entanto, é impossível prever tudo, e as formas de administração do estabelecimento de alguns jogadores têm sido uma agradável surpresa, nos contou Anne: "Embora nos últimos três a quatro anos eu tenha passado centenas de horas jogando Discounty, foi interessante ver como as pessoas conseguiram otimizar o jogo em poucos dias após o lançamento. O mais surpreendente foi ver como conseguiam isolar a maior parte da loja e construir labirintos altamente eficazes para os clientes percorrerem, como as grandes lojas de varejo, destacando os refrigeradores com os queijos, que são os produtos mais caros." 

O grande êxito de Discounty garantiu que os desenvolvedores pudessem continuar trabalhando no jogo, e eles estão buscando introduzir estratégias que recompensem os jogadores que usam a criatividade para fazer a loja funcionar. No entanto, eles também querem manter a visão crítica central do jogo, que incentiva a ver o gênero em si sob uma ótica mais criteriosa, de acordo com a Anne: "Em muitos jogos aconchegantes de simulação de vida, você chega na cidade como um estranho e acaba resolvendo os problemas de todo o mundo com o poder da agricultura, da pesca ou do comércio, neste caso. Gostamos de jogar esses jogos, mas não parece verossímil a ideia de que é possível resolver todos os problemas vendendo batata frita congelada. Quisemos que o povo de Blomkest tenha poder sobre o jogador, como exigir coisas ao entrarem na loja, ao invés de serem meros peões na aventura de crescimento dos jogadores."

Compre Discounty agora na Epic Games Store.