
Em Going Under, você não enfrenta monstros, mas sim o trabalho em tempo integral

Ao pensar no gênero roguelike, você provavelmente imagina uma jornada arriscada rumo ao desconhecido. Em Hades, você enfrenta inimigos enquanto atravessa as profundezas do inferno. Em FTL: Faster Than Light, você explora os infinitos confins do espaço. Independentemente do destino, quase todos os roguelikes te dão a mesma missão: você não pode morrer.
Going Under pode não ser tão sombrio quanto outros roguelikes, mas os desafios que ele traz são tão reais quanto qualquer outro. Em vez de atravessar o inferno ou o espaço, você atravessa masmorras como parte de um estágio não remunerado. No lugar de enfrentar deuses ou alienígenas, você enfrenta microagressões e a exaustão de um ambiente de trabalho. E, por mais que você se depare com vários inimigos (como goblins insatisfeitos, esqueletos-zumbi e outras almas perdidas), o verdadeiro monstro aqui é o seu chefe sem coração.
Going Under tem como protagonista Jackie, uma inocente professional de marketing que acabou de conseguir um emprego na agitada cidade de Neo-Cascadia. Após andar de monotrilho, ela chega em Cubicle, um conglomerado de e-commerce com milhares de funcionários e milionários. Um vídeo de boas-vindas explica que Cubicle cresceu do zero, com apenas um sonho e um "investimento financeiro moderado". Após uma avaliação cuidadosa feita pelo sistema de IA "amigável" do local, a empresa decide dar à Jackie o cargo de assistente em sua mais nova startup: Fizzle Beverages.
A desenvolvedora Aggro Crab não se acanha em suas críticas, usando humor ácido e inúmeras sátiras em uma cuidadosa desconstrução da cultura de trabalho moderna. Em uma cena, o fundador da Fizzle, Ray, anuncia o início da produção de um aplicativo de bebidas inusitado (e uma rede social para acompanhá-lo) e, depois, coloca todos os funcionários para trabalharem nesse projeto. Em outra, ele dá uma festa extravagante — cortesia do cartão da empresa, para a infelicidade da pessoa responsável pelo setor financeiro. Se você já trabalhou em um lugar que seguia a mentalidade "trabalhar mais para curtir mais", já deve ter ouvido esses tipos de histórias antes.

Lançado em 2020, Going Under estreou em um momento propício. Enquanto várias empresas abandonavam seus escritórios por conta da pandemia, seus funcionários tiveram um gostinho de um futuro mais livre e autônomo. Cargos de escritório passaram a ser feitos em regime remoto. Gerentes foram forçados a confiar que suas equipes trabalhariam bem de casa. Conceitos como "propósito" e "bem-estar" inundaram os feeds do LinkedIn, desafiando as empresas a tratarem melhor seus funcionários. O bom e velho emprego de tempo integral parecia estar evoluindo.
Porém agora, em 2023, esse movimento deu uma estagnada. Muitas empresas estão voltando para seus escritórios, as vagas remotas estão diminuindo e as folhas de ponto estão voltando à ativa. Isso pode até não ser surpreendente, mas é, sem sombra de dúvidas, decepcionante. No entanto, Going Under é um ótimo exemplo da razão por trás da popularidade de diretrizes de trabalho como as vagas remotas. O jogo captura a natureza monótona do ambiente de trabalho com maestria enquanto entrega uma experiência roguelike acessível, divertida e viciante.
Em 2021, a Aggro Crab e a publicadora Team17 lançaram uma atualização com um nome bastante pertinente: "Working From Home Update" ("Atualização Trabalhando de Casa"). Além de oferecer mais fortalecimentos e melhorias de qualidade de vida, essa atualização coloca Jackie contra sua doppelganger: uma funcionária melancólica uniformizada. A atualização confere um toque final satisfatório a Going Under e, ao mesmo tempo, dá forças a quem está voltando para o dia a dia corrido dos escritórios. Isso sim é solidariedade.
Going Under já está disponível na Epic Games Store.