
O personagem Lucky Carder de Inscryption faz o jogo funcionar

Dentes de ouro batem na balança envelhecida colocada entre você e seu adversário. Do outro lado da mesa, apenas os olhos brilhantes do seu adversário são visíveis na cabana escura e mofada onde você está jogando um estranho jogo de cartas. Os dentes inquietos pesam no lado da balança do seu adversário enquanto se acomodam, contabilizando o dano causado pela sua carta premiada: uma temível divindade inseto. De repente, uma voz que não pertence nem a você nem ao seu adversário exclama: "Sempre escolha Louva-a-deus Rei!".
Inscryption desafia explicações simples. É preciso jogar para apreciá-lo totalmente. Reviravoltas assustadoras, inversões no gênero e excelentes desafios de construção de baralho aguardam aqueles que mergulharem no sucesso de 2021. E o que faz esse jogo eclético ser tão bom é uma revelação surpreendente que chega relativamente cedo no jogo.
Sim, se você ainda não jogou e quer começar sem spoilers, este é o momento de parar de ler este artigo. Volte quando quiser saber mais sobre Luke "The Lucky Carder" Carder, o personagem que o criador de Inscryption, Daniel Mullins, apresentou por cenas no jogo no estilo "found footage" (filmes perdidos) para fundamentar a história e envolver ainda mais os jogadores em seus mistérios.
Quem é The Lucky Carder?

Os jogadores são apresentados ao Luke Carder bem cedo em Inscryption, embora possam não perceber. Quando apresentam você ao Carder (e você percebe que está vivenciando Inscryption a partir da perspectiva dele), o jogo já pressionou você a enganar Leshy, a figura assustadora que provavelmente já se deliciou matando o jogador muitas vezes àquela altura. Ouvir o Carder, interpretado pelo ator canadense Kevin Saxby, exclamar "Acho que eu... venci ele!" é a primeira grande reviravolta da narrativa.
(Informação: eu estudei com Saxby no ensino médio. Trabalhamos juntos em alguns vídeos bobos para as aulas, mas fazia anos que não conversávamos quando joguei Inscryption.)
Quase refletindo as experiências da maioria dos jogadores jogando Inscryption, Saxby não sabia o que o aguardava quando fez o teste para o papel de Carder. "Eu nunca tinha trabalhado em um jogo", diz Saxby durante uma entrevista conjunta com Mullins. "A maioria dos meus trabalhos até então tinha sido em comerciais, e algumas participações em séries de TV."
Mullins também nunca tinha dirigido alguém em cenas live action como em Inscryption. O jogo já estava quase concluído quando Saxby chegou. "Enquanto eu estava fazendo as partes dois e três, percebi que o jogo precisava de algo abrangente que unisse tudo", diz Mullins. "Já fazia algum tempo que eu brincava com a ideia de incluir vídeo no jogo — a ideia de o personagem ser um YouTuber abrindo baralhos de cartas levou à ideia de encontrar as coordenadas do jogo. Aí tudo começou a se encaixar".

Inscryption equilibra os jogadores entre seus mistérios "dentro do jogo" e as tentativas de Carder de decifrá-los "fora" do jogo em si. A história de Carder é mostrada por meio de clipes filmados com um celular, como fariam muitos YouTubers reais do nível de The Lucky Carder.
"Tinha ouvido de amigos que trabalharam em jogos que geralmente eles fazem captura de movimento ou dublagens, coisas assim", diz Saxby. "Mesmo enquanto lia trechos do roteiro, não tinha certeza do que seria exatamente. Eu nunca tinha visto jogos com live action antes, porque eu pessoalmente não sou muito de jogar".
Mullins, por outro lado, conhecia bem o gênero FMV (full-motion video). Esse gênero baseado em cenas com atores reais teve seu auge nos anos 90 com o crescimento do CD-ROM como formato de armazenamento para jogos.
"Eu não era um jogador de PC, eu era mais do Nintendo", diz Mullins. "Mas ao longo dos anos, como desenvolvedor, eu conferi jogos mais antigos como Command & Conquer para ter uma noção melhor."
Embora muitos dos primeiros jogos FMV sejam de baixa qualidade e baixo orçamento (e não tenham envelhecido muito bem), Mullins se inspirou em títulos mais recentes ao desenvolver Inscryption. O trabalho de Sam Barlow foi uma fonte crucial de inspiração. O jogo inovador de Barlow, Her Story, ganhou o Grande Prêmio Seumas McNally do Independent Games Festival em 2016, o mesmo que aconteceria com Inscryption mais tarde, em 2022.

"Os jogos de Barlow permitem que você manipule a filmagem com um alto grau de detalhe, e há uma estranha sensação de voyeurismo não apenas em assisti-la, mas também em poder retroceder e procurar pistas", diz Mullins. "Isso me cativou e colocou a ideia na minha mente. Foi ainda mais interessante o vídeo não ser o foco principal de Inscryption, mas algo eclético na mistura de um jogo já eclético com modelos 3D, pixel art e todos esses estilos diferentes."
Criando o personagem de Luke
Quando Saxby conseguiu o papel de Luke Carder, já havia um teaser trailer de Inscryption que mostrava o tom inicial do jogo. Antes de descobrir como interpretar um cara sendo envolvido no mundo inquietante de Inscryption, Saxby queria conseguir fazer o cara comum que vemos nos primeiros vídeos de Carder.
"Assisti a vários vídeos de aberturas de pacotes, só tentando entender os maneirismos externos e a cadência, o desempenho de alguém que é YouTuber", lembra Saxby, assumindo a atitude entusiasmada e empolgada de seu arquétipo de criador de conteúdo: "Olá de novo, pessoal! Hoje, vamos dar uma olhada em blá, blá, blá."
"Para a voz, eu com certeza precisava pesquisar para a atuação ter uma base e ser levada a sério. Mas inicialmente aquele mundo de transmissões da Twitch e aberturas de pacotes de cartas era bem estranho para mim."

Saxby (que, além de seu trabalho profissional, filma esquetes curtas para plataformas como o Instagram) se considera mais um comediante do que um ator e costuma hesitar um pouco para falar sobre seu processo. ("Eu não me considero 'um ator dramático'", diz ele). Para Carder, ele tentou "manter as coisas simples" e colocar o máximo dele mesmo no papel.
"Contanto que essas partes de mim não entrem em conflito com o lugar dele na história, acho que é preciso fazer isso", diz Saxby. "Eu me reformulei: fiquei um pouco mais alegrinho, um pouco mais nerd. Mas eu tentava me fazer muitas perguntas. É assim que gosto de abordar cada papel, descobrindo exatamente o que o personagem pensa sobre tudo o que está acontecendo."
A natureza das filmagens de Inscryption e o escopo de seu papel também permitiram que Saxby colaborasse de forma muito mais próxima com Mullins do que quando participava de séries como Batwoman da The CW ou Resident Alien do Syfy.
"Se você faz uma participação de um dia em uma série de TV — e digo isso com experiência bastante limitada —, definitivamente não há espaço para falar com o diretor nesses cenários. Eles estão exaustos, ocupados trabalhando com as estrelas", diz Saxby. "Nesse sentido [Inscryption] foi divertido, porque pude brincar mais com a minha atuação. Também havia mais tempo durante o dia para fazer isso, porque não há 15 pessoas que precisam assinar as coisas."

Mullins também achou divertido começar a trabalhar com Saxby, mesmo tendo que terminar o desenvolvimento e aprimorar o resto de sua história adicionando Carder ao jogo como um todo.
"Os roteiros não estavam totalmente escritos quando começamos a filmar, e espaçamos as filmagens em semanas ou às vezes até em um mês", diz Mullins. "Foi muito útil ter as filmagens à medida que avançávamos e, no final, foi mais fácil terminar os roteiros sabendo que Kevin seria quem iria interpretá-los."
Passando de divertido a paranoico
Sem se aprofundar muito nos detalhes da trama, a jornada pela qual Saxby e Mullins levaram Luke Carder visita lugares mais sombrios do que a vida de um jogador despreocupado, se estendendo até ao jogo de realidade alternativa que Mullins teceu ao redor de Inscryption.
Os trechos de FMV que foram inspirados mais no gênero de terror found footage do que na positividade performativa dos YouTubers exigiram que os dois saíssem um pouco de suas zonas de conforto.

"Coisas diferentes acontecem naturalmente para atores diferentes, e é muito mais fácil para mim fazer comédias mais alegres e interpretar eu mesmo", diz Saxby. "É por isso que sempre tive tanto respeito pelas rainhas do terror e outros atores que têm ataques de nervos em filmes de terror, e eles fazem isso de maneira tão convincente e tão bem, como Toni Collette em Hereditário. Chegar a esse ponto... não sei se diversão é a palavra certa, mas é emocionante."
"É um desafio chegar a um ponto onde você realmente pensa que vai morrer", continua Saxby. "Para ser honesto com o papel, tenho que acreditar pelo menos um pouco nisso. Não posso simplesmente pensar em ter essas emoções e viver como Luke viveu durante esse pesadelo que se desenrola. Eu precisava acelerar meu coração, estender minha imaginação."
"Lembro-me de Kevin se preparando para algumas cenas, repetindo coisas como 'Eu vou morrer, eu vou morrer'", lembra Mullins, rindo. "Eu tinha muito pouca experiência como diretor ou trabalhando com atores, então só pensei que isso era o que ele precisava fazer."
Para criar o companheiro de realidade alternativa de Inscryption, Mullins aproveitou o trabalho com Saxby para colocar pistas no segmento de vídeo e até mesmo para responder aos esforços da comunidade para resolver os quebra-cabeças que ele apresentou. Para aqueles que jogaram seus jogos anteriores, como The Hex, e desvendaram o jogo de realidade alternativa, Mullins queria levar o desafio a outro nível.

"Poucas pessoas tiveram a experiência do jogo de realidade alternativa que criei para The Hex — nem perto da quantidade de pessoas que participaram de Inscryption", diz Mullins. "Para mim, a questão era como fazer diferente dessa vez, como trazer novas reviravoltas e momentos chocantes.
Eu também penso no que acontece quando o jogo de realidade alternativa acabar, quando todos encontrarem tudo o que existe... Como apresentar isso como uma narrativa depois? As pessoas farão vídeos resumindo o que aconteceu, e acho que isso também faz parte da experiência."
Enviar pistas para jogadores do jogo de realidade alternativa foi algo novo para Mullins, e quando dois fãs decidiram fazer uma transmissão ao vivo em busca das coordenadas onde Luke Carder encontra sua versão de Inscryption em um disquete no jogo, ele e Saxby entraram em ação. "O encontro das duas pessoas na floresta com Kevin foi totalmente não planejado", diz Mullins (vale assistir à reação ao vivo dos espectadores da transmissão ao descobrirem o disquete "real" de Inscryption e o que houve a seguir).
O legado de Luke
Inscryption ganhou muita popularidade no boca a boca nos meses seguintes ao seu lançamento em outubro de 2021, o que acabou levando a vários prêmios de Jogo do Ano. Mas dois anos depois, a parte que Saxby lembra com mais carinho é a maneira como os maiores fãs de Inscryption abraçaram não apenas o jogo, mas também o ator. Ao longo de vários meses, Saxby fez transmissões jogando Inscryption, superando seus desafios e curtindo artes de fãs de Luke Carder e outros personagens, como Leshy.

"Toda a comunidade de Inscryption foi muito amorosa, calorosa e acolhedora", diz Saxby. "Com base na popularidade do jogo, provavelmente foi uma pequena porcentagem da comunidade que apareceu nas minhas transmissões, mas elas foram maravilhosas e foi divertido fazer com que me vissem tanto como Luke Carder quanto como Kevin. Jogar o jogo, basicamente como eu, foi incrível."
"Penso nisso quase todos os dias", continua ele. "Sempre que eu publico um vídeo, eu recebo um comentário no Instagram ou algo dizendo 'Ei, esse cara parece o Luke de Inscryption!' É um grande privilégio."
Mullins, pronto para experimentar um novo jogo de mesa com Saxby após o término da nossa entrevista, também ficou muito feliz com o resultado da colaboração. "Eu gostei do processo todo", diz Mullins. "Ajudou a aumentar minha confiança."
"Ainda tenho um pouco de síndrome do impostor tendo trabalhado nesse projeto", disse Saxby a Mullins. "As pessoas me perguntam quando vai estar disponível em uma plataforma ou se vai ter um jogo de mesa, e eu digo que elas precisam perguntar ao rei, a mente por trás de tudo."
"Bem, para falar a verdade sobre a síndrome do impostor, acho que você foi muito mais profissional como ator do que eu como diretor. Eu fiquei impressionado", respondeu Mullins.
"Teve um momento muito divertido", ele continua, "quando estávamos na floresta e filmamos uma cena inteira. A gente desligou a câmera para assistir e o vídeo tinha simplesmente desaparecido. 'Mas o que aconteceu? Eu apertei para gravar!'"

Mullins e Saxby começam a rir. "Estava amarrada na minha cabeça, né?" Saxby pergunta. "Usamos um grampo que ficava pressionando um botão para interromper a gravação."
Mullins acrescenta: "Na verdade, preciso reforçar isso... Só de pensar na situação... Luke segura uma lâmpada e uma pá na cena, então ele deve ter comprado um grampo de cabeça para filmar. É muito ridículo."
Ridículo? Pode ser, mas também é o tipo de detalhe que faz Luke Carder parecer uma pessoa real envolvida na história de Inscryption, um sinal de que ele é o tipo de cara que se dá mal por ser curioso demais. Certamente curioso demais para deixar um disquete depois de encontrá-lo enterrado na floresta.
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