
Prince of Persia: The Lost Crown retoma seu passado 2D para traçar um novo futuro

Em Prince of Persia: The Sands of Time, possivelmente o jogo mais aclamado da série, o Príncipe repreende o jogador quando sua "história" não é contada direito. "Espera aí, não foi assim que aconteceu", diz o Príncipe quando você chega em uma tela de Game Over.
Prince of Persia é uma série obcecada pelo passado — literalmente, já que conta com a mecânica de voltar no tempo. Porém, quando chegou o momento de decidir o futuro de Prince of Persia, a Ubisoft procurou criar algo inteiramente novo: um Metroidvania que ainda se inspira nos pontos fortes da série.
Recentemente, pude sentar com alguns dos desenvolvedores por trás de Prince of Persia: The Lost Crown, o jogo que pretende reviver a série, traz inspiração de suas origens 2D e também conta com alguns truques na manga.
Honrando um legado
Por ser o primeiro lançamento da franquia após mais de uma década, The Lost Crown tem muitas expectativas para atender. Tal fato não é novidade para o produtor sênior da Ubisoft Montpellier, Abdelhak Elguess, que afirma que a equipe tirou bastante inspiração dos jogos anteriores da série, principalmente de The Sands of Time e do Prince of Persia original de 1989.
"Achamos importante manter o legado da franquia, principalmente na questão da mecânica de manipulação de tempo e do combate acrobático", diz Elguess. "Existe até uma menção à Warrior Within [sequência de The Sands of Time] com um traje dedicado a esse título na versão Deluxe".
No entanto, embora The Lost Crown preste homenagem aos seus antecessores, Elguess o enxerga como um novo direcionamento para a série. "É uma abordagem nova que respeita as sensações que temos ao jogar um Prince of Persia", afirma Elguess.

Por fora, The Lost Crown tira inspiração dos jogos de Prince of Persia já existentes de várias e importantes maneiras. A primeira é a retomada às origens dos gráficos de plataforma 2D (com ambientes e artes 3D) do Prince of Persia original de 1989, que foi desenvolvido por uma equipe pequena liderada pelo criador da série Jordan Mechner. Porém, diferente desse glorioso clássico, The Lost Crown adere à exploração não linear e à profundidade de combate do subgênero Metroidvania para estabelecer sua própria identidade.
Elguess considera essa mudança uma "adaptação natural" para a série. "A câmera 2D influencia o jogo inteiro — tanto no combate e nos elementos de plataformas quanto na exploração", explica Elguess. "Deixar que o jogador faça uma leitura clara [do ambiente] nos permite criar, por exemplo, mais sequências de plataforma complexas com um ritmo muito satisfatório. Isso também vale para o combate. Quanto à exploração, o mundo do jogo, assim como o mapa, oferece aos jogadores uma maior sensação de imersão e aproveitamento".
Dito isso, o estilo Metroidvania também pode apresentar dificuldades para os desenvolvedores. Elguess o considera um "gênero complicado de desenvolver", já que a Ubisoft precisa respeitar a autonomia e liberdade do jogador sem deixar que ele se perca nas diversas ramificações do mapa. A equipe precisou garantir que o jogador vivenciaria a história de The Lost Crown mesmo permitindo que trilhasse sua própria rota no decorrer do jogo.
Uma nova ramificação
A mente original por trás da série aplaude a proposta de The Lost Crown frente a esse subgênero moderno focado em exploração. Jordan Mechner afirma que, embora o Castlevania e o Metroid originais tenham sido lançados antes do Prince of Persia de 1989, o termo "Metroidvania" só foi existir muito tempo depois.
"Na época, nós chamávamos esses jogos de 'plataforma' ou de 'ação e aventura'", diz Mechner. "Os gêneros não eram tão definidos como são hoje em dia. Eu encarava Prince of Persia como um equilíbrio entre ação, quebra-cabeças e exploração com uma história por trás. Levando isso em conta, The Lost Crown respeita bastante as origens da franquia".
Embora Mechner reconheça que muitos gamers podem considerar Prince of Persia uma série majoritariamente 3D, ele também afirma que as origens 2D da série nunca foram deixadas de lado. Ele costuma encontrar pessoas que contam que jogaram o Prince of Persia original com os seus pais ou avós, ou que compartilharam o título com seus próprios filhos.

Mechner chama The Lost Crown de "uma nova ramificação" da série — uma que apresenta Prince of Persia a uma nova geração de jogadores. Ele também aponta que o reboot de The Sands of Time da Ubisoft está atualmente em desenvolvimento em Montreal, dizendo: "Acredito que as preferências dos jogadores, bem como suas idades e estilos, são variados o suficiente, o que permite que esses jogos complementem um ao outro e coexistam amigavelmente".
Mechner não está envolvido diretamente na criação de The Lost Crown, mas já trabalhou com muitos integrantes dessa equipe criativa em projetos anteriores de Prince of Persia que nunca foram lançados (ele conta mais sobre esses projetos em seu livro de memórias gráfico Replay, que será lançado em inglês em 2024). "Eu tenho fé no talento e dedicação deles com Prince of Persia, e estive torcendo por esse projeto desde o início", afirma Mechner.
Repensando o gênero
O subgênero Metroidvania explodiu em popularidade desde o último lançamento da série: o Prince of Persia de 2008. Com sucessos notáveis como Hollow Knight, Bloodstained e a série Ori, é mais do que normal ver a Ubisoft se inspirando em seus contemporâneos. Elguess considera o uso do 3D em Metroid Dread como algo particularmente notável, já que deu à Ubisoft mais confiança na hora de usar a tecnologia 3D na criação de The Lost Crown.
De forma geral, Elguess diz que o estúdio tentou forjar o seu próprio caminho, mas que não deixa de reconhecer como a influência entre jogos é uma parte inevitável do ciclo de desenvolvimento. "Você está fadado a ser influenciado por outros jogos que usam essa estrutura", comenta Elguess.
"Você precisa entender bem desses jogos para conseguir apresentar algo exclusivo e novo aos jogadores, mas também respeitar certos códigos que o público já espera desse gênero", continua ele. "O que sempre consideramos importante foi ter o nosso próprio estilo e oferecer ferramentas específicas a jogadores que não estão acostumados com o gênero, tornando-o, assim, o mais acessível possível. Ele é um gênero profundamente moderno que respeita a inteligência do jogador e que deveria ser conhecido pela maior quantidade de pessoas possível".

Em termos de combate nu e cru, a Ubisoft queria garantir que as lutas de espada 2D de The Lost Crown teriam a mesma intensidade e profundidade mecânica que os jogadores associam aos grandes jogos contemporâneos 3D. Como Mechner aponta, a animação e os controles fluídos foram, desde o princípio, uma parte importantíssima da identidade de Prince of Persia junto a "uma sensação de ritmo e fusão com o personagem através do controle". Elguess diz que a equipe quer que o público tenha essa sensação logo no começo de The Lost Crown.
"Logo que você adentrar a ação épica de uma luta contra uma mantícora, a câmera 2D não será mais importante. Você estará focado no momento, prestando atenção nos movimentos do inimigo e mergulhando na mitologia persa", continua Elguess. "Nós queríamos capturar as emoções que vivenciamos em The Sands of Time e no Prince of Persia original, transcrevendo-as de uma maneira mais moderna que não colocaria a câmera 2D como um obstáculo. Assim, os jogadores ficarão imersos tanto na demo quanto no jogo em si".
Ao ser questionado sobre a abordagem específica que a Ubisoft utilizou para atingir esses objetivos, o diretor de jogo Mounir Radi apontou para o mundo dos jogos de luta como uma fonte de inspiração. "O sistema de combate [em The Lost Crown] se inspirou na filosofia por trás dos jogos de luta modernos, especialmente nos das séries Street Fighter e Smash Bros.", afirma Radi. "A premissa desses jogos é oferecer um arsenal limitado onde cada ferramenta possui uma função específica. A profundidade vem mais através da combinação de cada ferramenta da execução de suas ações".
Um relógio em movimento
Prince of Persia sempre trouxe a viagem e manipulação do tempo como um de seus elementos-chave — desde a mecânica de retrocesso no tempo de The Sands of Time até o relógio do original de 1989.
The Lost Crown dá um toque novo a esse conceito na forma de habilidades concedidas ao personagem Simurgh. Essas habilidades permitem que o protagonista Sargon brinque com o tempo e o espaço. Shadow of Simurgh, por exemplo, permite que você coloque uma sombra de Sargon em um certo local e, depois, traga-a de volta pressionando um botão. The Lost Crown também apresenta "anomalias temporais" que causam um efeito interessante em Sargon.
"O diferencial [em The Lost Crown] é que o jogador está sempre no controle", diz Elguess. "Isso dá a ele oportunidades de brincar com isso e criar estratégias."
Outro aspecto importante de The Lost Crown é o uso da verdadeira mitologia persa tanto na história quanto na estética do título. A série mergulhou nessa mitologia no passado para melhorar seus cenários inspirados em As Mil e Uma Noites. No entanto, Mechner aponta que The Lost Crown apresenta mais referências diretas, como o pássaro mitológico Simurgh (semelhante à fênix) e o Monte Qaf, terra natal de um gênio invisível e astuto. Já na parte estética, Elguess diz que os artistas da Ubisoft se empenharam para reinterpretar elementos caligráficos no estilo inspirado em animes e mangás que The Lost Crown tem.
Em relação ao que aguarda a série Prince of Persia após The Lost Crown, tanto Mechner quanto a Ubisoft não revelaram muitos detalhes.
Mechner menciona que existe bastante interesse em tornar o Prince of Persia original mais fácil de se jogar em plataformas modernas, e ele acredita que "quase todas as peças estão no lugar" para que algo aconteça em relação a isso. Ele cita o projeto recente da Digital Eclipse, The Making of Karateka (outro jogo clássico que ele dirigiu), como um bom exemplo de preservação de jogos, e diz que adoraria ver Prince of Persia recebendo um tratamento semelhante, caso seja possível. E, claro, ele está empolgado para ver o remake de The Sands of Time ser lançado quando estiver pronto.
Prince of Persia: The Lost Crown será lançado na Epic Games Store dia 18 de janeiro de 2024.