
the iii initiative: uma apresentação de jogos feita pelas pessoas por trás dos seus indies favoritos

No próximo mês, um grupo de desenvolvedores independentes unirá forças para resolver um problema geral. As equipes envolvidas já tiveram sucesso com jogos como Dead Cells, Darkest Dungeon, Risk of Rain 2, Slay the Spire, Vampire Survivors e V Rising. Esses não são grandes estúdios AAA. São os "triplo i", estúdios independentes que, juntos, podem ser poderosos.
A apresentação de jogos que eles farão recebeu o nome de the iii (ou "triple-i") initiative. O evento acontece dia 10 de abril com mais de 30 estúdios se juntarão para anunciar novos jogos, além de destacar e promover jogos favoritos dos fãs e clássicos indie consagrados. O triple-i tem o apoio de importantes estúdios independentes como Evil Empire, Red Hook, Mega Crit Games, poncle, Stunlock Studios, Thunder Lotus, Re-Logic, Ghost Ship Games, Extremely OK Games, Heart Machine e muitos outros, e promete trazer vários anúncios e revelações de jogos em uma transmissão ao vivo de cerca de uma hora.
Você pode assistir a essa apresentação nas plataformas YouTube, Twitch, bilibili, IGN e Steam no dia 10 de abril, às 14h (BRT).
Conversamos com algumas das pessoas por trás dessa nova e intrigante "iniciativa misteriosa" (pronunciada e às vezes escrita como "triple-i") para saber de onde veio a ideia, como tudo aconteceu e o que eles esperam alcançar. Ao conversarmos, enquanto todo mundo falava da the iii initiative, mas eu só conseguia pensar no iPad.
Mesmo antes de Steve Jobs revelar o tão comentado dispositivo em 2010, o maior garoto-propaganda da Apple falou sobre onde esse dispositivo se encaixaria no mundo já estabelecido da computação. De um lado, tínhamos os notebooks, que supriam uma demanda por uma experiência completa de computação portátil. Do outro, tínhamos o smartphone, com uma experiência poderosa, mas limitada, e que cabia no bolso. Será que havia espaço para uma terceira categoria no meio disso?
Segundo Jobs, se houvesse, esses dispositivos "teriam que ser bem melhores em fazer coisas muito importantes" do que as ferramentas que já tínhamos.
Assim nasceu o iPad, um dispositivo que não pretendia acabar com o smartphone ou substituir o notebook, mas ser um meio-termo interessante entre os dois. Ninguém precisava escolher um lado só. Bastava cada um escolher o dispositivo que fazia mais sentido para si no momento.
Enquanto Benjamin Laulan e Bérenger Dupré, da Evil Empire, e Rodrigue Duperron, da Thunder Lotus, falavam sobre a the iii initiative e sorriam entusiasmados, dava para ver que eles estavam desenhando o melhor cenário que Jobs tinha previsto. Eles são os iPads da indústria dos jogos — não tão grandes quanto os estúdios AAA, mas não pequenos o suficiente para serem totalmente independentes.
Mas é aí que está a grande questão dos triplo i: o mundo não é feito para eles. É feito mais para notebooks e smartphones.
Mas esse pessoal quer mudar isso.
Por isso estão se unindo para ajudar uns aos outros.
Um momento ruim
Tudo começou com um momento ruim para a Evil Empire.
O estúdio com sede em Bordeaux, na França, foi fundado em 2019 como um braço da Motion Twin, a desenvolvedora original de Dead Cells. O estúdio passou seus primeiros anos apoiando e expandindo esse jogo com uma mistura de conteúdo para download gratuito e pago.
Há alguns anos, a Evil Empire estava trabalhando em uma expansão audaciosa que traria elementos da série Castlevania, da Konami, para Dead Cells — um jogo que não existiria se não fosse pela inspiração que tirou da própria série Castlevania que estava prestes a incorporar. Foi aí que eles quiseram contar as novidades sobre Dead Cells: Return to Castlevania para o mundo.
"E para esse novo jogo", comentou Bérenger Dupré, diretor de marketing da Evil Empire, "por questões de agenda, basicamente não havia nenhum evento para fazer o anúncio de lançamento".
Esse não era um problema novo, mas levou a uma nova solução.
Por muitos anos, o ciclo anual de hype do mundo dos games girava em torno da E3, uma exposição de jogos que celebrava a indústria e trazia várias atualizações, anúncios, trailers, entrevistas e estreias. Mais recentemente, Geoff Keighley tornou-se o porta-voz não oficial dessa indústria por conta de seu papel como realizador e apresentador dos eventos anuais Summer Game Fest e The Game Awards. Alguns anúncios também rolam na gamescom, que ocorre em Colônia, na Alemanha, em agosto. E, claro, os maiores nomes do mercado como Microsoft, Nintendo e Sony, realizam suas próprias apresentações de jogos ao longo do ano.
As desenvolvedoras independentes, como a Evil Empire, costumam participar desses eventos. O próprio Dead Cells: Return to Castlevania acabou sendo anunciado durante o pré-show do The Game Awards, e sua data de lançamento foi anunciada em um Nintendo Direct.
No entanto, aos olhos dos desenvolvedores independentes, eles e seus jogos não ganham destaque de verdade nesses eventos. Eles acabam ficando mais de lado ao competir com o anúncio de um novo Mario, Halo ou Call of Duty, por exemplo. Esses indies sabem e entendem que as publicadoras agendam eventos de acordo com o que for melhor para elas, o que não necessariamente se alinha com o que é mais benéfico para seus parceiros do desenvolvimento menores. E embora esses desenvolvedores independentes fiquem felizes por serem inclusos, eles também sabem bem que não são as verdadeiras estrelas da apresentação.
Mas e se não precisassem seguir o calendário dos outros? E se os jogos indie passassem a ser o evento principal?
Benjamin Laulan, COO da Evil Empire, e Dupré começaram a fazer perguntas para responder às suas próprias dúvidas.
"Foi aí que começamos a entrar em contato com todos os nossos amigos para ver como era a experiência e a opinião deles", comentou Laulan. "Perguntamos se eles também tinham as mesmas dificuldades que nós para anunciar seus próximos jogos. Se já tinham enfrentado o desafio de não encontrar um lugar que comportasse toda a extensão do jogo".
As respostas viraram as sementes que deram início à the iii initiative, com a Evil Empire à frente do movimento.
Um momento bom
Rodrigue Duperron é o diretor de marketing e publicação da Thunder Lotus, a desenvolvedora mais conhecida por Spiritfarer, um lindo jogo no estilo de pintura em que você transporta almas para a vida após a morte. O futuro roguelike multijogador da desenvolvedora, 33 Immortals, é baseado em A Divina Comédia de Dante e traz bastante arte medieval.
A Thunder Lotus faz parte da the iii initiative, e Duperron faz a decisão parecer simples e óbvia.
"Acho que a maneira mais fácil de entender como essas discussões começaram — pelo menos falando por nós mesmos —, é ver que há um respeito mútuo pelo que nós estamos fazendo e pelo que a Evil Empire está fazendo. Eu, particularmente, por trabalhar com a publicação de jogos, tenho admirado muito o trabalho deles em Dead Cells ao longo do tempo", diz Duperron.
Esse tema surgiu várias vezes na conversa que tive com eles. Os desenvolvedores independentes normalmente não se veem como adversários. Eles tendem a compartilhar o que Duperron chamou de "respeito mútuo", e muitas vezes são fãs dos jogos uns dos outros.
Sendo assim, quando Dupré e Laulan, da Evil Empire, perguntaram a Duperron se ele sentia que vivia em um meio-termo estranho entre grande e pequeno, muitas vezes sem saber onde ou como divulgar seus jogos...
"A resposta foi sim", afirmou Duperron. "A resposta é que eu, como diretor de marketing e publicação, faço a maior parte do meu planejamento em torno de perguntas como: 'Beleza, quando é a E3? Quando vai rolar o The Game Awards?'. Esse tipo de coisa. 'Como a gente entra nisso?
O que devemos fazer?'. O que Benjamin [Laulan] e Dupré identificaram corretamente é o fato de que não há outra escolha. Ou damos um jeito de trilhar um caminho sozinhos ou continuamos tentando pegar migalhas de algo muito maior".
Com adesão suficiente de desenvolvedores independentes com ideias semelhantes, a the iii initiative nasceu como uma vitrine para desenvolvedores independentes criada por eles mesmos e dedicada aos seus fãs. É uma oportunidade de se promoverem e conectarem suas comunidades. Não é um evento voltado para desenvolvedoras AAA. É algo voltado para desenvolvedoras "triplo i", um trocadilho com essa ideia de independência dos indies.
Eles acreditam que, unidos, podem fazer algo no nível do que você veria em uma apresentação AAA. Juntos, eles acreditam que essa exposição pode fazer frente aos maiores nomes do mercado — e não apenas do ponto de vista da apresentação, mas também da qualidade dos anúncios.
"Não é uma questão de exclusividade", disse Duperron. "É uma questão do quanto as pessoas querem ver o nosso trabalho. E nós sentimos que cada um de nós merece um destaque individual. E isso não é apenas uma esperança. Nós sabemos que, juntando tudo isso, as pessoas vão entender que nós somos publicadoras e desenvolvedoras excelentes".
O melhor momento
Eles estão empolgados, mas com expectativas moderadas. A verdade é que eles vão lançar uma apresentação de jogos, não um jogo — e, por conta disso, não sabem como tudo será recebido, assim como não sabem como seus jogos serão recebidos. No entanto, é a esperança e a convicção de que estão fazendo algo que vale a pena que anima esses desenvolvedores.
"É claro que não seremos o próximo Nintendo Direct, nem o próximo The Game Awards. Esse nem é o objetivo", afirmou Dupré. "Mas sei que se conseguirmos unir as comunidades de Dead Cells e da Thunder Lotus, podemos ter uma boa quantidade de jogadores interessados. Às vezes, você coloca seu trailer em outra apresentação, mas não tem certeza do resultado. Você sabe que o trailer é legal, que o jogo é legal, mas talvez os espectadores não sejam o tipo de jogador que você procura. E a ideia é pelo menos garantir que vamos conversar com todos os tipos de jogadores. E como eu disse, não somos concorrentes, então creio que temos basicamente o mesmo tipo de público alvo".
E o que podemos esperar desse evento? Embora eles não queiram estragar nenhuma surpresa, podemos especular algumas coisas com base no objetivo deles, e eles estão mais que felizes de poder falar sobre isso.
"Tínhamos uma preocupação muito grande com a qualidade dos anúncios", disse Laulan. "Não queríamos simplesmente fazer um grande compilado de trailers de tudo que você já conhece. Queríamos que fosse empolgante para os espectadores. Precisamos de surpresas. Precisamos de novidades interessantes. Precisamos mostrar jogos como nunca antes vistos. E acho que conseguimos preparar tudo isso. Ou pelo menos espero que tenhamos conseguido!".
E essa é a premissa desse meio-termo, desse iPad dos jogos, construído sobre uma parte consolidada (e crescente) do ecossistema do mundo gamer.
"É algo muito positivo", comentou Duperron sobre essa colaboração nascida a partir do respeito mútuo.
"Só estamos tentando chamar a atenção das pessoas antes de sermos engolidos pelo tsunami dos grandes títulos AAA que dominam o cenário", continuou ele. "E nós não somos concorrentes. Acreditamos que quem ama os nossos jogos vai ficar muito feliz em ver o que a Evil Empire está anunciando. E isso é maravilhoso. É ótimo participar de algo assim e estou muito ansioso para ver o que vai rolar".