
The Legend of Khiimori vai além dos simuladores de cavalgada em mundo aberto

Quando o assunto são simuladores de cavalgada em mundo aberto, The Legend of Khiimori não é a primeira experiência da Aesir Interactive. Durante o desenvolvimento da série Windstorm, jogos sobre aprender a levar um garanhão de um trote suave a um galope espetacular, a equipe percebeu que recorria com frequência aos lendários cavaleiros da Mongólia em busca de inspiração.
Esses cavaleiros lendários já espalharam temor por toda a Ásia Central e merecem ser muito mais do que uma simples referência. O diretor de criação Gérard Lehiany explica como, em parceria com institutos históricos da Mongólia, The Legend of Khiimori coloca esses cavaleiros como protagonistas, no lugar de destaque que eles merecem.
Na Mongólia do século XIII, pessoas e cavalos eram inseparáveis. Era praticamente uma relação simbiótica: atravessar as vastas estepes mongóis sem um cavalo era quase impossível, e sobreviver às passagens montanhosas sem se aconchegar no calor confiável do seu corcel era ainda mais difícil.
"Em todo jogo que fizemos sobre cavalos, a gente pensava: 'Não seria incrível se você pudesse se pendurar de lado e pegar coisas no chão, como os mongóis faziam?' Mas nunca dava para ir fundo nisso. Não era o tipo de jogo que estávamos fazendo", diz Lehiany. "Esse é um país que tem uma forma única de montar e de se relacionar com os cavalos. A gente precisa visitar essa cultura!"
Em praticamente todos os casos, os mongóis nos videogames têm sido sinônimo de Genghis Khan e de seu Exército Mongol. Em vez de focar em um período de guerra que corre o risco de soar batido por causa de uma das figuras mais temidas da história, The Legend of Khiimori se passa pouco depois da morte dele. "Nós não queríamos fazer um jogo de guerra", explica Lehiany.

Em vez de um guerreiro, você joga como Nara, uma mensageira do sistema de correio Yam, cuja função é levar mensagens e cargas pelas estepes da Mongólia. Não é um trabalho nada monótono. Na verdade, acaba sendo tão decisivo quanto qualquer batalha enfrentada por um dos comandantes de Gêngis Khan.
"Essa teia de missões de mensageiro foi, na verdade, o que fez o país sobreviver", diz Lehiany. "Foi porque todas aquelas tribos se conectaram logo depois da guerra, e até durante a guerra, que foi possível manter um país coeso."
Isso não quer dizer que este seja apenas um Death Stranding com cavalos. Como parte da rede de mensageiros, a sua nobre responsabilidade faz de você o canal por onde passam informações e inovações tecnológicas. As descobertas mais recentes, sejam novos estilos de caligrafia ou o conhecimento para se orientar e traçar rotas olhando para as estrelas, chegam todas por você.
Algo que ele compartilha com o simulador de entregas estranhamente cativante da Kojima Productions (ou com os "simuladores de caminhada" igualmente literais que seguem, a passos incertos, seus passos, como Baby Steps) é a fixação em tornar a locomoção interessante, com uma abordagem extremamente intencional para o planejamento de rotas. Isso significa que Lehiany precisa encarar o velho dilema dos jogos de mundo aberto: como tornar divertida a simples ação de ir do ponto A ao ponto B?

Não é colocando o jogador em cima de um cavalo que isso se resolve, embora a velocidade e a fisicalidade empolgantes da cavalgada certamente ajudem. O diferencial é a enorme variedade de terrenos e vida selvagem e a forma como o seu cavalo interage com tudo isso. The Legend of Khiimori trata os cavalos com a mesma complexidade, riqueza de detalhes e adoração que jogos de corrida como Gran Turismo reservam para seus veículos.
"Há coisas que se combinam o tempo todo. Você precisa estudar o que está carregando e então olhar para o mapa com outros olhos", explica Lehiany. Por exemplo, um cavalo com alta resistência encara subidas íngremes, enquanto um cavalo com força de sobra atravessa águas profundas que esgotariam rápido as montarias mais leves e ágeis. Mas essas montarias velozes conseguem saltar desfiladeiros que as mais pesadas do estábulo nem ousariam tentar. No fim, tudo gira em torno dessa alquimia caótica entre o terreno, as habilidades do seu cavalo e o que vai na sua mochila.
E isso sem contar o que Lehiany chama de "sistemas silenciosos", que dão a cada cavalo uma personalidade viva e própria. Com vários cavaleiros na equipe, eles sabem bem quais peculiaridades observar. Um cavalo desconfiado sustenta o contato visual para ficar de olho em você, chegando a se contorcer para não perder você de vista enquanto você ajusta a sela. Alguns saem saltitando assim que você desmonta. Outros ficam ali, numa calma paciente, plenamente satisfeitos.

Na vida real e em The Legend of Khiimori, traços como esses vêm da genética. Como nos jogos de cavalos anteriores deles, é por meio de um sistema de criação que o jogador personaliza sua montaria do jeito que quiser. Em alguns aspectos, é bem científico. Você avalia traços e fenótipos, até chegar ao código genético. Mas, por outro lado, também carrega crenças místicas da antiga Mongólia. Ao colocar o animal para reprodução, você pode posicionar uma estátua ou queimar um tipo específico de erva para influenciar o sexo do filhote ou turbinar atributos específicos.
É mais do que criar um clima romântico para dois cavalos prestes a começar a própria família. "Isso conta a história da fé e do misticismo deles", diz Lehiany, que se esforçou ao máximo para incluir a filosofia e o folclore mongóis em outras partes, incluindo as lendas que surgiram em torno dos supostos poderes formidáveis concedidos a quem possui a sela de Gêngis Khan.
Talvez não seja um jogo de guerra, mas The Legend of Khiimori também está longe de ser apenas um jogo de cavalos. Historicamente, a Mongólia também era famosa por seus arqueiros, mas o arco tem um significado diferente em uma cultura em que os animais abatidos para consumo passam por um ritual de consagração respeitoso. Foi preciso redesenhar de forma deliberada as missões e o sistema de fabricação do jogo para enfatizar a sobrevivência, e não a ganância.
"A Mongólia tinha um respeito enorme pela vida selvagem", diz Lehiany. "A gente respeitou isso e também trouxe esse aspecto para o balanceamento. Existe algum momento em que você simplesmente mata coelhos por nada? Não. A gente tenta balancear o jogo para você não cair nesses comportamentos."

As mecânicas de combate seguem esse mesmo espírito. Se um urso farejar você, derrubar o bicho com flechas certamente vai esvaziar sua aljava. Em vez disso, o jogo te incentiva a criar uma bolsa de pólvora para disparar no chão e espantá-lo, ou soltar uma nuvem de fumaça que mascara seu cheiro sob um fedor sulfuroso. Assim, você consegue fugir, e o urso fica registrado para sempre no seu mapa como um lembrete bem útil.
As estepes mongóis e o Deserto de Gobi, recriados aqui com um visual deslumbrante, são conhecidos por seus vendavais cortantes. Lehiany descreve o vento como a "cola que conecta tudo" do jogo, pela forma como ele sustenta cada sistema. E isso vai até o próprio nome, já que Khiimori é o termo em mongol para uma entidade xamanística chamada Cavalo de Vento. "O vento na Mongólia é extremamente presente. Ele fala sobre muita coisa", diz Lehiany.
O impacto dele nas mecânicas de arco e flecha é evidente. Como muitos estúdios, a equipe teve de segurar um pouco a ambição de fazer um vento totalmente realista quando rajadas fortes demais obrigavam o jogador a mirar na direção oposta de onde queria acertar a flecha. "Isso não é tão interessante e também torna o arco e flecha mais difícil de usar do que em outros jogos", explica Lehiany. "E os mongóis são conhecidos por serem muito, muito bons nisso, então a gente precisa garantir que não seja difícil demais jogar bem com arco."
Em outros aspectos, o sistema de vento funciona exatamente como planejado, com mais refinamentos e mecânicas previstos após o lançamento iminente em Acesso Antecipado. Uma nuvem de fumaça é carregada pelo vento. Uma flecha de fumaça mal calculada faz ela flutuar inutilmente para longe. A vida selvagem detecta sua presença pelo cheiro que se espalha no ar. Um trecho exposto no caminho vai exigir mais resistência, assim como atravessar um rio.
"Você não tem um medidor de vento, mas dá para olhar para a sua personagem. Ela tem penas e esse tipo de coisa [no traje]. A gente ainda está tentando deixar isso perfeito, para o jogador nem perceber que essa é a informação que ele está lendo. Deixar isso natural. A mesma coisa vale para o som do vento. O som do vento com certeza consegue dar arrepios."
Vista-se bem para o frio e adicione The Legend of Khiimori à sua lista de desejos na Epic Games Store antes do lançamento em Acesso Antecipado.