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O sofrimento viciante de Mortal Shell
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Dave Tach
Mas o negócio é o seguinte: em Soulslikes bem-acabados — esse gênero de RPG e ação duro de zerar, cujo nome vem da série Dark Souls da FromSoftware — você quase sempre acaba se culpando quando algo dá errado. Com eles, você consegue ver seu potencial. Você acaba acreditando em si mesmo e nota o que poderia ter feito de diferente. São jogos que fazem você querer repetir a dose. E repetir é o que você faz, ficando um pouquinho melhor cada vez que tenta sobreviver a esse sofrimento viciante.
Com Mortal Shell, a desenvolvedora Cold Symmetry criou uma ode à receita dos Soulslikes que entende as qualidades de seus predecessores. O jogo também tem a inteligência de ir além do gênero, com reviravoltas engenhosas que tornam a experiência interessante para veteranos e neófitos. E você nem precisa esperar muito para descobrir as novidades.
Você entra no mundo desolado e perigoso de Fallgrim completamente despido, debilitado e vulnerável. Armado apenas com uma espada gigante que exige todas as suas parcas forças para executar cada mero movimento, você logo verá que Mortal Shell traz uma maneira de se defender, mesmo que por um momento. Com a mecânica Harden, você é capaz de ficar petrificado, num estado congelado e imóvel, para se defender de um único ataque.

Com o passar do tempo, você verá que Harden não oferece apenas uma vantagem defensiva, já que sua forma petrificada é destruída quando você é atingido. Se usar a mecânica Harden enquanto dá um golpe, você finalizará o movimento quando um inimigo atacar. Essa novidade estratégica combina defesa e ataque para dar outra dimensão aos combates: o tempo. É uma técnica útil ao longo de Mortal Shell, independentemente da arma ou carcaça (shell) que você estiver usando. O desafio é não só reagir ao perigo por meio de um bloqueio como também antecipar-se, preparar-se e punir o inimigo pela agressão.
Mortal Shell também descarta boa parte da minuciosa gestão de classe usada por tantos outros RPGs. Em vez de distribuir pontos por meia dúzia ou mais de atributos confusos, o jogo inova com as "carcaças" — que são como classes pré-fabricadas. Cada carcaça funciona de maneira própria. Algumas são especializadas em armas grandes, e com elas você consegue sentir o peso de cada ataque e movimento. Outras funcionam melhor com armas menores e mais rápidas — ou seja, favorecem uma abordagem mais ágil. Você pode usar as carcaças como se fossem roupas, então fique à vontade para se especializar numa só ou alternar entre várias. Quanto mais você joga, mais aprende e mais é capaz de melhorar os golpes e armas de cada personagem.
Mortal Shell recompensa sua curiosidade de maneira constante. Quando você encontra itens espalhados pelo mundo, não dá para saber muito sobre eles. Mas, ao usá-los, você vai aprendendo um pouco sobre cada um. A descrição dos itens vai aumentando, mostrando mais utilidades e propósitos. É uma dinâmica inteligente que entrelaça seu conhecimento e experiência com os do personagem, à medida que ambos vão se familiarizando. Assim, você também tem um incentivo constante e prático para experimentar e atiçar sua curiosidade. Ser muito minucioso e acumular itens só vai atrapalhar.
Grandes ideias viram gêneros. A Sega pegou a plataforma de visão lateral que a Nintendo popularizou com Super Mario Bros., acrescentou um monte de ideias próprias e criou Sonic the Hedgehog. A Cold Symmetry pegou Dark Souls e criou Mortal Shell. Se a diferença entre paródia e homenagem é o nível de apreço pelo jogo, Mortal Shell cai como uma luva na segunda categoria. É um RPG de ação desafiador, interessante e equilibrado.
Você pode adquirir Mortal Shell na Epic Games Store.