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A desenvolvedora Blue Manchu dá uma aula sobre personagens, design de jogo e como não ser envenenado em Wild Bastards

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John Walker
13 de set. de 2024

Wild Bastards, o sucessor espiritual de Void Bastards de 2019, nos deixou obcecados com a versão curta. A combinação de estratégia estilo roguelite e batalhas de tiro em primeira pessoa com uma turma maluca de desajustados em sua jornada pelo espaço é incrível e nos deixa com vontade de mais. O jogo completo já está disponível e finalmente saciará esse desejo. Falamos com a desenvolvedora Blue Manchu para saber mais sobre o processo de criação do jogo, as semelhanças e diferenças com o jogo precedente e a relevância do som nos combates. 

Em Wild Bastards, você entrará em uma missão para resgatar camaradas derrotados e alcançar a terra prometida de Homestead, controlando uma turma que não vai parar de crescer, com integrantes peculiares como um canibal de quatro braços, um robô apostador e um esqueleto em chamas. Nessa jornada, você explorará mapas táticos em vários planetas, enfrentará batalhas de tiro em primeira pessoa em cidades remotas e encontrará lojas, itens e inimigos itinerantes, jogando com uma dupla de fora-da-lei que irá se alternando em cada voo da sua equipe.

Void Bastards também era um jogo de exploração espacial com um mapa tático em que você visitava lugares e vivia batalhas de tiro em primeira pessoa, o que os torna bastante semelhantes. Porém, a experiência de jogo é bem diferente em cada um. Do ponto de vista tático e narrativo, a diferença é grande. Wild Bastards é mais envolvente e exige que os jogadores coordenem diversas batalhas em cada planeta, enquanto controlam vários personagens ao mesmo tempo. Ao não dar tanta importância à fabricação e aprimoramento dos equipamentos, ele escolhe um caminho diferente do seu predecessor de cinco anos atrás. Foi por isso que eu perguntei à Blue Manchu sobre a relação entre ambos os jogos e em que aspectos eles se parecem.
09 - Wild Bastards
Jon Chey, o cofundador da Blue Manchu, nos revelou que, em Wild Bastards, eles quiseram retomar algumas ideias de Void Bastards, dando-lhes um rumo diferente. Embora ambos os jogos possuam elementos roguelike, como voltar ao início do último marco importante ao morrer e a perda de recursos obtidos, a diferença principal é a essência dos personagens. 

Jon comentou que enquanto em Void Bastards ocorre uma luta desesperada por sobrevivência usando personagens descartáveis, em Wild Bastards você embarca em uma aventura fantástica com um grupo de fora-da-lei que vivem brigando, mas se ajudam mesmo assim. No entanto, os desenvolvedores foram bem categóricos em dizer que não estamos diante de uma sequência, mas sim ante uma guinada rumo a outra direção. Quando eu perguntei sobre as semelhanças de arte e escrita, presumindo que um jogo é a sequência do outro, Jon me disse: "Não, eles não acontecem no mesmo universo, porque Wild Bastards tem bem menos burocracia e muito mais ação".

Embora haja uma grande diferença entre os jogos, não há dúvidas de que Wild Bastards foi fortemente influenciado pela experiência da equipe na produção do primeiro jogo. Jon também contou mais detalhes sobre a criação dessa nova aventura. "Decidimos criar uma experiência de tiro em primeira pessoa dentro de um jogo de estratégia para explorar essa noção, e ficamos bem felizes com o resultado. A gente aprendeu muito sobre o nível de complexidade e a duração das sequências de ação que o jogo devia ter, aprendendo como retroalimentar ambos os elementos. Quando estávamos criando Void Bastards, teve uma hora em que a equipe percebeu que os níveis estavam durando demais, porque ao dar de 20 a 30 minutos para a parte de ação, prejudicávamos o componente estratégico, que ficava sem fôlego. Usamos tudo isso que aprendemos para criar Wild Bastards, apesar de a parte estratégica ser bem diferente".

Um dos aspectos mais cativantes de Wild Bastards são os personagens. Cada um é único e eles estão muito bem elaborados, graças à qualidade da arte do jogo, em grande parte. Isso é fato quando vemos a personagem Spider Rosa, graças ao seu design meio vampírico, no melhor estilo Tim Burton, e às suas falas ao terminar alguns tiroteios, em que decide qual vítima comer primeiro. Por outro lado, o jeito lento e a voz rouca do Judge, junto à sua forma parruda, fazem você se lembrar daqueles típicos cowboys durões dos filmes de faroeste. Jon deu mais detalhes sobre a criação dos personagens:

"Foi uma das partes mais cruciais do jogo. Começávamos com um arquétipo para cada personagem e depois trabalhávamos no nome e em uma breve descrição, incluindo suas motivações. Isso nos levava a criar um conceito visual, em que definíamos boa parte da identidade do personagem, para depois criar suas armas e habilidades. Na última etapa, o roteirista Jerry Holkins escrevia a história e as falas, que usávamos para fazer os ajustes finais e refinar as habilidades em jogo, de acordo com a personalidade de cada um".
07 - Wild Bastards
Para dar um exemplo incrível do processo criativo, a Blue Manchu falou sobre a versão inicial do Doc Casino, um dos personagens. Disseram que ele originalmente se chamava Gambler (Apostador) e se parecia com o Judge. Porém, quando a roteirista Cara Ellison entrou na jogada, ela mudou o nome dele para Henri Legite, ou só Doc Legit, escrevendo a seguinte biografia:

"Um doutor que adora fazer apostas. Ele teve sorte logo de cara e ganhou uma atualização que o converteu em doutor. Desde então, está sempre em busca da próxima jogada de sorte. Motivação: capturar prisioneiros, ou será que ele só quer estar o mais atualizado e poderoso possível?"

As revisões seguintes acabaram dando protagonismo à necessidade de escapar das dívidas dos jogos de azar, que foi ocupando o lugar da busca por status de doutor como motivação do personagem. Depois, quando a equipe decidiu que os robôs teriam o menor status dentro do universo do jogo, seu nome mudou para Casino Finance Unit 7103 (Unidade Financeira 7103 do Cassino), ou simplesmente Casino. A biografia dele passou a ser:

"Casino é um ex-robô de planejamento financeiro, tão bom em previsões fiscais como em perder dinheiro em apostas. Motivação: enormes dívidas com criminosos mortais mantêm Casino à espera da sorte grande na próxima mesa de apostas, que faz ele perder mais do que ganhar".

Com tudo definido, a equipe se dedicou às suas habilidades, como dinheiro, armadura e velocidade de recarga, e planejou suas melhorias ao longo do jogo. Isso explica por que os personagens parecem tão completos, já que a personalidade define as características, e não ao contrário.

Outra qualidade marcante de Wild Bastards é o uso do som como guia no jogo. Nas batalhas de tiro em primeira pessoa, vários inimigos usam coberturas ou ficam dentro de prédios para se esconder, o que poderia frustrar o ritmo da ação. Porém, graças a um giro bem criativo dos desenvolvedores, ninguém consegue ficar calado, e os inimigos ficam gritando sem parar entre si, inclusive provocando o jogador. Ao gritarem, a origem dos gritos aparece na bússola que fica no topo da sua tela.

O motivo dessa gritaria funciona bem demais no jogo. As provocações ridículas e a arrogância com que zombam de você são extremamente imersivas. Jon explicou que quiseram usar o som não só como fonte de informação, mas também para criar mais imersão e emoção. "É por isso que a gente gastou um montão de tempo em detalhes como as provocações dos inimigos e a propagação do som. Prestar atenção no som é essencial para ter êxito em Wild Bastards, já que os inimigos gritam constantemente, provocando os jogadores, o que acaba delatando a posição deles. Às vezes, eles também gritam o que estão vendo, inclusive o que estão pensando em fazer".
10 - Wild Bastards
Por último, fui bem sincero com eles e transmiti minha frustração ao lutar contra os inimigos com ataques quem envenenam, que me fizeram perder bastante. Os venenos causam muito dano e continuam tirando vida por um bom tempo depois do ataque. Mas a resposta do Jon à minha opinião inclemente sobre o poder de dano do veneno acabou evidenciando ainda mais a complexidade e flexibilidade do jogo.

"O veneno é realmente agressivo, mas dá para lidar com isso de várias formas no jogo. Primeiro, a maioria dos ataques venenosos são lentos, permitindo que você se esconda atrás de coberturas ou desvie deles. Segundo, as armaduras bloqueiam todos os danos, incluindo de veneno, então pode ser vantajoso usar os fora-da-lei com melhor armadura, ao invés dos que têm a maior barra de saúde. Terceiro, ao trocar de personagem, o efeito do envenenamento é pausado enquanto o personagem fica em segundo plano. Então, se um integrante da dupla for envenenado, é só trocar e usar o outro. E caso ambos estejam envenenados, você pode ir alternando, para manter ambos com vida. Quarto, se você encontrar um item de vida, o efeito do veneno vai desaparecer. E finalmente, caso você sinta que o veneno vai te derrotar, você pode bater em retirada, já que ao voltar, o nível de veneno será zerado".

Ah, entendi. Parece justo agora.

Wild Bastards já está disponível na Epic Games Store.