
Agatha Christie - Morte no Nilo mistura o clássico romance policial com o charme dos anos 1970

Um homem entediado está sentado — esperando, talvez — no vagão-restaurante de um trem preso na neve quando o condutor vem pedir sua ajuda. Acontece que um passageiro foi assassinado em um dos vagões, e a equipe precisa de sua ajuda para encontrar o culpado. "O assassino ainda está no trem", diz um executivo ferroviário a bordo. Para alívio de todos, o homem aceita investigar, animado com a ideia de passar algumas horas com esse intrigante mistério de assassinato.
Este é o Assassinato no Expresso do Oriente, e ele tem todos os ingredientes de um clássico romance policial: um detetive talentoso e entediado, um local isolado cheio de suspeitos e reviravoltas de sobra. Esse tipo de suspense marcou as histórias de Agatha Christie, a indiscutível rainha da ficção policial (ao lado de Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, claro). Também é uma adaptação para videogame — e uma releitura moderna — do famoso romance, feita pelo estúdio francês Microids Studio Lyon, com você no papel do meticuloso e bigodudo detetive belga Hercule Poirot. O detetive, porém, voltará algumas décadas no tempo na próxima adaptação de outro romance de Christie: Morte no Nilo.
Diferente de Agatha Christie - Assassinato no Expresso Oriente, um jogo ambientado na década atual — com Poirot usando smartphone e tecnologia para investigar — Agatha Christie - Morte no Nilo se passa nos anos 1970. Isso levanta a questão: por que Morte no Nilo se passa em outra época?

David Chomard, cofundador e chefe da Microids Studio Lyon, diz que a equipe quis evitar as complicações que enfrentaram em Assassinato no Expresso Oriente ao ambientar aquela investigação em 2023. "[Isto é] principalmente por causa dos celulares, computadores, internet, ciência forense e coisas do tipo. Queríamos um período moderno que tivesse tecnologia, mas não algo tão avançado", diz ele. "Os anos 1970 pareceram a escolha óbvia, especialmente porque também deram aos personagens e cenários um visual marcante que os tornaram ainda mais memoráveis."
Morte no Nilo adotou o estilo da época, com música Disco vibrante, black power à la Diana Ross e moda icônica, como sapatos plataforma, lantejoulas e ternos de poliéster. O próprio Poirot pode colecionar discos de vinil e brincar com equipamentos da época, de jukeboxes a projetores de slides. Chomard ressalta, porém, que isso vai além de uma simples escolha estética; Morte no Nilo também incorpora vários detalhes que conferem autenticidade ao cenário dos anos 1970.
"Os quebra-cabeças usam objetos icônicos da época: toca-fitas, polaroides, câmeras Super 8, telefones de disco, vitrolas, entre outras coisas", disse ele. "Os personagens e seus diálogos refletem o período: veterano do Vietnã, hippie, socialite etc. Os cenários também são bem emblemáticos da época: discotecas, o Bronx (em Nova York), Maiorca — que era tipo a Ibiza da época." Além disso há a trilha sonora inspirada em discoteca, composta pelo músico Kurtz Mindfields. Para a música do jogo, ele usou e abusou de sintetizadores clássicos da época, como o ARP Odyssey 1 e o Minimoog Model D.
Outra diferença em relação a Assassinato no Expresso Oriente? Morte no Nilo terá dois protagonistas — e, portanto, duas perspectivas diferentes do assassinato. Você não só investigará o mistério central como Poirot, mas também como Jane Royce, uma personagem original criada pelos desenvolvedores.

Chomard explica que isso ajuda a engajar jogadores que já conhecem a história: "Um dos nossos maiores desafios ao adaptar os romances da Agatha Christie é que a maioria dos jogadores já conhece o enredo, ainda que parcialmente. Não é muito empolgante investigar um caso quando você já sabe o final. Com uma segunda protagonista, criamos uma investigação paralela da qual ninguém tem conhecimento, trazendo novidades e surpresas até para os fãs veteranos."
Alguns fãs poderiam esperar que a segunda personagem fosse Arthur Hastings, grande amigo e parceiro atrapalhado de Poirot. Mas Chomard diz que a personalidade de Hastings é parecida demais com a calma de Poirot. "Hastings não aparece no romance Morte no Nilo, então não havia motivo para incluí-lo na história principal. E para a história secundária, queríamos uma personagem totalmente original para nos libertarmos das restrições de um personagem criado por Agatha Christie. Jane é combativa, temperamental, atlética e um pouco ousada — características que não combinariam muito bem com Hastings", acrescenta Chomard.
Ao mesmo tempo, a Microids mudou a forma de investigar em Morte no Nilo, embora tudo ainda gire em torno do Mapa Mental de Poirot. Pense nele como um diário na cabeça de Poirot — as "células cinzentas" que conectam todas as pistas que ele reuniu. Ele o informa sobre os próximos passos da investigação, além de servir como um local para analisar pistas e fazer deduções, como reconstruir a ordem cronológica dos eventos.
"A novidade em Morte no Nilo é poder conectar pistas para fazer deduções, como em outros jogos de detetive", disse Chomard. "Mas o que torna nosso sistema único é que o jogador também deve responder: 'Por que posso conectar essas pistas?' Queremos que o jogador se sinta inteligente, como um detetive de verdade." Além de examinar objetos como fotos e relógios — o básico para um detetive —, Poirot e Royce também podem escutar conversas privadas. Para isso, precisam manter a discrição, seja se misturando à multidão, seja seguindo os suspeitos furtivamente.
Chomard diz que um dos maiores desafios foi escrever a nova narrativa do jogo, que vai além do livro original. A equipe levou pelo menos seis meses para escrever e elaborar uma narrativa adequada para expandir a história de Christie. Ainda segundo ele, as investigações em Morte no Nilo são bem menos lineares que no jogo anterior, o que aparece no sistema de Perfis de Personagem — anotações mentais de Poirot sobre as diversas pessoas que ele encontra. Isso difere levemente do sistema mais simples de Assassinato no Expresso Oriente. "Agora o jogador pode preencher os perfis aos poucos, conforme descobre mais sobre cada personagem", diz Chomard. "Por exemplo, é possível saber a profissão de alguém numa conversa, mas descobrir seu segredo só depois, ao escutar escondido. Todo personagem importante tem um segredo bem guardado esperando para ser revelado."
Adaptar romances muito apreciados para videogames nunca é fácil, mas é um desafio que a Microids parece enfrentar com entusiasmo. Com uma narrativa expandida, uma segunda protagonista original e até uma linha do tempo diferente do livro, a equipe quer oferecer uma experiência que pode cativar até mesmo os mais ávidos leitores de Christie. "Aprendemos muito com Assassinato no Expresso Oriente lendo as análises dos jogadores e da imprensa", disse Chomard. "A investigação agora é menos linear, com mais liberdade, mais exploração, mais interação com os cenários e controles melhores dos personagens. Também adicionamos novas mecânicas e quebra-cabeças, pois os jogadores gostaram da variedade e do fato de a jogabilidade nunca parecer repetitiva em Assassinato no Expresso Oriente." Embora não seja uma história nova, essas mudanças devem revitalizar o clássico mistério para os jogadores.
Agatha Christie - Morte no Nilo chegará em breve à Epic Games Store.