
Jogue como mestre ladrão e detetive em Arsene Lupin - Once a Thief

Você deve conhecer Arsène Lupin pelo nome, mas poucos realmente conhecem o ardiloso cavalheiro ladrão dos contos de mistério do autor Maurice LeBlanc, escritos no início de 1900.
Até a presente data, o mestre do disfarce conseguiu escapar do renome mundial do mesmo jeito que se safou das garras de detetives confusos e prisões parisienses. Poirot tem David Suchet. Sherlock Holmes tem Benedict Cumberbatch. Arsène Lupin não tem um equivalente assim; mesmo a série da Netflix com o nome dele é sobre alguém que se inspirou nele, não o personagem em si. Ele é um enigma que porta uma capa e uma cartola, difícil de definir; já que prova com frequência nas histórias com o nome dele que nenhuma prisão ou cela (ou talento de ator) pode capturá-lo.
Mas em Arsene Lupin - Once a Thief, a Blazing Griffin traz um olhar original, dando ao famoso ladrão o primeiro papel principal em um videogame. Neil McPhillips, diretor de jogos na Blazing Griffin, admite que, embora tenha sido emocionante levar o Lupin para uma nova mídia, isso também traz uma responsabilidade e tanto. "Se as pessoas nunca leram os livros, nossa versão é provavelmente o primeiro contato delas com o personagem", diz McPhillips. "Isso gera muita pressão, mas acho que é uma coisa bem legal para se fazer".
Adaptando um enigma
Depois de anos focada nos mistérios de assassinato de porta fechada em Hercule Poirot: The First Cases e Hercule Poirot: The London Case (a Blazing Griffin discutiu com a gente a incrível arte de se criar histórias de detetive), adaptar as excentricidades de Lupin implicava uma grande reviravolta. As duas adaptações de Agatha Christie eram casos sombrios e sórdidos, restritos em grande medida aos confins de uma casa de campo. Arsene Lupin - Once a Thief é uma aventura global leve que se inspira na primeira coleção de contos de Lupin, bem como na ostentação excessiva da Belle Époque.
McPhillips sente que muitas das adaptações de Lupin não acertam porque deixam de fora um detalhe importante: Lupin é engraçado. Lupin não deve passar uma sensação de grandiosidade pomposa, muito menos ter um tom sombrio que imite as tramas sinistras encontradas por Sherlock Holmes. As "adaptações" bem-sucedidas, como a série de anime Lupin III e a série Lupin da Netflix, capturaram a ideia. Embora claramente não tenham o próprio Arsène Lupin, elas trazem à tona a noção de malícia do material de origem, com os disfarces bobos e uma arte de aplicar golpes ousada.

Da mesma forma, a Blazing Griffin percebeu que uma abordagem divertida (quase debochada com um tom ultrajante e meio obsceno) se encaixa melhor na roupagem de Lupin. E a desenvolvedora abordou a natureza misteriosa do protagonista usando uma narrativa moldura, com Lupin contando sobre os golpes antigos para o próprio Maurice LeBlanc, discutindo os detalhes em frente à lareira.
"Muitas das histórias originais são sobre a percepção das pessoas e a lenda de Lupin", diz McPhillips. Existe o Lupin que é o representado nas mídias, virando capa de jornal quando é preso ou em julgamento, e há um outro que existe em rumores cheios de temor, espalhados entre civis ou membros de tripulação durante um cruzeiro para os EUA.
Mas quem realmente é Lupin? Interpretações dos golpes e da verdadeira personalidade dele entram em choque, criando contradições deliberadas; e a questão é que nunca dá para saber quem ele é!
Tornando possível o impossível
"Muitas das histórias de Lupin são tipo: 'E então fui lá e fiz algo impossível', e todo mundo fica, 'Claro que fez, você é o Lupin!'", diz McPhillips, com uma clara inveja dos deus ex machinas de LeBlanc. "Não dá para fazer isso em um jogo! Temos que realmente mostrar como essas coisas impossíveis foram feitas."
A solução para contar histórias desses golpes improváveis é "Fantasy Lupin", que, como observa McPhillips, tem um vestuário aristocrático totalmente forjado das capas dos livros, pois a roupa mesmo nunca aparece nas histórias em si.
A lenda de Lupin implica que cada roubo é planejado com cinco anos de antecedência. Arsene Lupin - Once a Thief tira proveito disso, colocando você no papel do famigerado criminoso na parte do planejamento; porém, as tramas dele dificilmente saem como planejado. Uma incursão que deu errado exige uma improvisação insana, um traje tirado da cartola montado com itens desconjuntados, uma ferramenta temporária para arrombar um cofre.

Para preservar a magia de um enigma tão complicado, não seria bom passar tanto tempo com Lupin, pois essa magia dele poderia se dissipar devido a um excesso de familiaridade. Nas histórias, os golpes dele são geralmente vistos pelos olhos de outrem. Isso se reflete em Arsene Lupin - Once a Thief, com Lupin dividindo os holofotes com vários personagens jogáveis.
Após o glamour de Fantasy Lupin, os capítulos se centram em personagens que estão tentando persegui-lo. Como em um jogo de Onde Está o Wally?, ou um Hitman ao contrário, onde você vai atrás do Agente 47, a jogabilidade de detetive da Blazing Griffin vem à tona. Refazendo os passos sobre o que aconteceu após o golpe, os jogadores voltam à cena do crime com outra perspectiva: a das várias partes interessadas, incluindo diversos rivais.
Um conto de dois detetives
McPhillips descreve o detetive Ganimard, encontrado pela primeira vez em um cruzeiro aos EUA, como um "desajeitado" em sua empreitada cheia de falhas, porém obsessiva, atrás desse gatuno criminoso. Ele está fadado a nunca ter sucesso em suas tentativas, aumentando cada vez mais a própria humilhação. Mesmo assim, as seções dele marcam um retorno à jogabilidade de detetive que é especialidade da Blazing Griffin: locais com precisão de período detalhados para inspecionar, mecânicas de mapa mental como as de um quadro investigativo, além da adição de minijogos no estilo do jogo Ace Attorney.
Poderia ser perigoso colocar jogadores no papel de um detetive quase incompetente, tantas vezes passado para trás por um adversário astuto, mas McPhillips espera que os jogadores vejam Ganimard com o mesmo carinho que ele vê. "Você joga como um detetive ruim, e acho que essa perspectiva é meio que única", diz. "Normalmente, é a realização de um desejo. Você é o maior dos ladrões, é o melhor detetive. E aqui é como, 'Não; na verdade, você não é nada disso não!'"

Um adversário mais convencional logo aparece, e ele é bem familiar, apesar da tentativa aparente de se manter desconhecido: Herlock Sholmes, que não é um erro de grafia, mas o resultado de um evento de cruzamento de histórias não autorizado, agora com mais de 100 anos, onde Sherlock Holmes apareceu nas aventuras de Lupin, antes de um Arthur Conan Doyle litigioso forçar LeBlanc a adotar um anagrama apressado (e malfeito).
Hipercompetente e propenso a ser teatral demais (como todo mundo que viu essa aparição já sem direitos autorais em The Great Ace Attorney Chronicles pode confirmar), Holmes aumenta tanto o drama quanto a ameaça para Lupin, que se vê forçado a criar medidas cada vez mais inventivas para escapar de uma cela de prisão que está logo ali esperando por ele.
O que está por baixo da cartola?
Apesar de o tom de Lupin ser vivo e por vezes leviano, McPhillips diz que é importante também haver profundidade, com Arsene Lupin - Once a Thief trazendo elementos de histórias posteriores para produzir um personagem mais intrigante. As primeiras histórias de Conan Doyle sobre Sherlock Holmes podiam muito bem ter apenas uma dimensão, simplesmente libertando um gênio capaz de desvendar os problemas mais enervantes com um olhar determinado. Mas como a Blazing Griffin não podia assumir esse risco com Lupin, a equipe expandiu os aspectos da personalidade dele.
"Existe uma insinuação de que Lupin não existe. De que ele está perdido. Ele esqueceu quem ele é porque já foi inúmeras pessoas, dia após dia", explica McPhillips. "Estávamos tentando brincar com as expectativas do jogador. Não era apenas questão de se cometer travessuras em um jogo de ladrão como Sly Cooper, e sim mais uma abordagem narrativa desse personagem da literatura."

Além de roubar cofres, escapar de prisões e se esconder em navios, Lupin também se apaixona. A experiência faz ele perceber que precisa ser mais do que isso, alguém real, mais substancial do que um mistério fugaz trajando diversos disfarces. Essa foi uma expansão das histórias originais aprovada pela bisneta de LeBlanc. Ela confirmou que sinais de paixão (por algo mais que um ovo Fabergé) mereciam ter seu lugar paralelamente ao mistério. "Sempre tem uma mulher. Esta é a regra de Lupin."
Arsene Lupin - Once a Thief já está disponível na Epic Games Store.