Novidades

God of War Ragnarök é sobre o fim do mundo (e ser um bom pai!)

B
Ben Kuchera
26 de nov. de 2024

"Desconfie de atalhos para o conhecimento", diz Kratos, o próprio God of War, ao filho Atreus no premiado God of War Ragnarök, já disponível para computador e na Epic Games Store. Muita coisa mudou desde que conhecemos a dupla pela primeira vez no começo de God of War de 2018. Agora, o par encara uma nova ameaça, lidando com um pai vingativo de uma deidade que foi morta no jogo anterior, mas Atreus também se tornou um jovem com seus próprios segredos (e um destino terrível do qual talvez não haja escapatórias).

Não é todo jovem ou pai experiente que precisa lidar com as repercussões e responsabilidades de ser um deus, mas praticamente todas as crianças e pais vão enxergar alguma parte de si mesmos na história desses dois personagens obstinados. God of War Ragnarök traz um conto quase universal sobre como geralmente acreditamos que entendemos tudo quando estamos crescendo, e como por vezes caímos na mesma armadilha de nos sentirmos seguros demais sobre criar nossos próprios filhos.

Quando percebi como a história é parecida com minha vida cotidiana (como filho dos meus pais e como pai dos meus filhos), me apaixonei novamente por God of War Ragnarök,

pois, se existe algo que todo pai adoraria oferecer aos filhos, com certeza é um atalho para o conhecimento.
 

Professores imperfeitos nos ensinam a criar nossos filhos


O God of War anterior conta a história de Kratos e Atreus aprendendo a se perdoarem como seres humanos com suas próprias forças e fraquezas, focando em um pai que guarda coisas demais para si após a morte da esposa e uma longa história de usar violência contra quem quer que fique no caminho dele. Kratos era um homem que ainda não tinha se entendido com o seu passado, e sua falta de habilidade de falar ou compartilhar suas lutas internas leva a muitas das maiores batalhas do jogo. God of War também terminou mostrando um caminho bem obscuro para os dois personagens.
God of War Ragnarök 4
God of War Ragnarök aborda o estresse introduzido nas famílias quando as crianças começam a crescer e escolher os próprios caminhos, principalmente quando os pais não concordam com as decisões delas. Kratos e Atreus querem o melhor um para o outro, para si e também para o mundo que estão tentando melhorar. Mas as boas intenções deles geralmente são as primeiras a caírem, pois eles mantêm segredos um do outro e têm dificuldade para falar o que realmente pensam.

O jogo não é uma aventura, mas uma tragédia, e me vi várias vezes gritando com a tela, implorando para que eles simplesmente conversassem. Mas é por causa disso que a tensão fica tão presente em boa parte do jogo. Os outros deuses com certeza têm os planos deles, mas Atreus e Kratos tendem a se atrapalhar muito mais do que qualquer outra pessoa.

Mais do que obstáculos externos, o limite deles está na falta de confiança um no outro; e isso faz todo o sentido. Conforme as crianças crescem e se tornam adultos, elas precisam explorar o próprio mundo, aproveitar algumas novas liberdades e, inevitavelmente, cometer erros. Em alguns casos, isso quer dizer bater o carro da família e lidar com as consequências. Em God of War Ragnarök, isso significa lidar com um jovem que precisa processar as emoções de forma mais saudável em vez de se transformar literalmente em um animal sempre que perder o controle sobre os sentimentos.

Lutar também já foi a solução favorita de Kratos contra seus problemas, mas fica cada vez mais claro que a violência é igualmente a fonte de tantos desses problemas. Pior ainda, o filho dele o vê mais como uma arma viva do que um homem que cometeu erros e que agora entende os limites de sair estraçalhando tudo para mostrar que está certo.

Claro que Kratos está frustrado; não importa como ele mude sua abordagem, ele nunca consegue realmente se tornar o pai que as circunstâncias pedem que ele seja, e apesar de tentar muito, o passado continua impiedosamente perseguindo os dois.
God of War Ragnarök 5
Em contrapartida, Atreus está lidando com o surgimento dos próprios poderes, e isso inclui uma aproximação intensa aos animais, a habilidade de entender várias línguas e a força que com o tempo pode superar a de seu pai. Atreus, entretanto, também está muito mais interessado no que as outras pessoas pensam e sentem, e a forma dele de navegar pelo mundo inclui ter mais empatia, serenidade e sabedoria do que a força bruta costumeira de seu pai.

Atreus quer encontrar um caminho diferente do de seu pai, mas lida mesmo assim com a insegurança de não ser tão forte quanto ele. A equipe de desenvolvimento do jogo trata dessa tensão diretamente nas seções do jogo onde o jogador passa a controlar Atreus, algo que é uma novidade na série. O jovem é bem mais ligeiro que Kratos, mas igualmente mortal na prática.

Apesar de os dois personagens pensarem que são mais diferentes do que parecidos, Kratos é mais aberto com suas emoções do que gostaria de admitir, e Atreus é um lutador mais hábil do que pensa ser. O jogador é incumbido com um segredo que nenhum dos dois está pronto para acreditar por boa parte do jogo: eles são mais parecidos do que diferentes, apesar do jeito único de cada um de fazer as coisas acontecerem.
 

Nem todo mundo precisa salvar o mundo, mas todos queremos sim salvar nossas famílias


A questão mais marcante nessa dinâmica de pai e filho em God of War Ragnarök é ser muito fácil se ver nos dois personagens se você já teve uma relação complicada com seus pais; na verdade, praticamente toda relação entre pais e filhos vai ser complicada. Kratos deseja que Atreus o escute e aprenda com os próprios erros, enquanto Atreus busca descobrir seu caminho pelo mundo. Os dois estão certos, cada um à sua maneira.

A distância entre nós e nossos filhos só aumenta conforme eles crescem e saem dos seus ninhos, e todos já fomos crianças que algum dia se sentiram presas pelas expectativas dos nossos pais. Sei o que é querer cometer meus próprios erros e me tornar a pessoa que fui destinada a ser, porém, ao mesmo tempo, vivi tempo o suficiente para desejar que meus filhos escutassem algumas das lições mais difíceis que vivi para evitarem a dor que senti.
God of War Ragnarök 2
"Desconfie de atalhos para o conhecimento", Kratos resmunga, mas é um conselho que ele precisa primeiro aprender para depois poder dar. O ato de criar os filhos não é ele mesmo a esperança de que nossas crianças aprendam com nossos erros em vez de repeti-los? Não há nada mais humano do que esperar que aqueles com quem nos importamos recebam um atalho para o conhecimento, evitando as cicatrizes que acumulamos.

Porém, isso nunca funciona; as lições que aprendemos em nossas vidas ficam conosco por causa das cicatrizes, e somente quando nossos filhos viverem suas vidas e ganharem as próprias cicatrizes é que entenderão a sabedoria que desejamos a eles. Sabemos que crescemos por causa dessas dificuldades, mas esperamos pavimentar o caminho para nossas crianças para que não precisem passar pelas mesmas coisas em sua jornada. Essa tarefa, todavia, não só é impossível, mas o que nossas crianças vão aprender se nunca forem forçadas a tomar decisões quando encararem as adversidades?

Kratos deseja que Atreus seja sábio antes de ser experiente, e isso é impossível. Já Atreus quer ser livre sem consequências, sem perceber que a consequência é literalmente o preço da liberdade. Quem dera ele escutasse o pai dele. Quem dera Kratos soubesse usar as palavras certas.

Quem dera um atalho para a sabedoria existisse.

God of War Ragnarök já está disponível na Epic Games Store.