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MythForce mostra por que os desenhos de sábado de manhã dos anos 80 se encaixam perfeitamente em roguelikes

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Julian Benson
19 de set. de 2023
Em apenas dois anos, entre 1983 e 1985, a companhia de brinquedos Mattel produziu 130 episódios de He-Man e os Mestres do Universo. A cada semana, He-Man e seus amigos heroicos enfrentavam uma nova tramoia articulada por um dos inimigos da sua terra natal. Por trás de muitas das maquinações maldosas estava o arqui-inimigo de He-Man, o feiticeiro com cabeça de caveira, Esqueleto. E mesmo em 130 episódios, apesar de impedir os inimigos todas as vezes, as forças do bem nunca realmente triunfaram sobre as forças do mal. Nessa luta incessante – o diretor do projeto MythForce, Luke Rideout, me conta –, a desenvolvedora Beamdog encontrou o "cenário perfeito para um roguelite".

Em MythForce, o lorde vampiro Deadalus criou um exército de esqueletos mortos-vivos, cogumelos humanoides venenosos e homens-lagarto com língua bifurcada para arrasar completamente as terras fantásticas de Eldryth. E apenas quatro heróis podem impedi-lo: Rico, um mercenário que usa adagas; Victoria, uma tanque com armadura de cavaleiro; Hawkins, o arqueiro mortal; e Maggie, uma maga com poder de sobra. Você controla um dos quatro heróis em aventuras no modo solo ou cooperativo contra os seguidores de Deadalus, abrindo caminho através dos exércitos mortíferos dele e coletando ouro e outros tesouros no decorrer da jornada.

MythForce é jogado como outros roguelikes em primeira pessoa, como Warhammer: Vermintide 2 e Gunfire Reborn. Você e seus amigos entram em uma masmorra gerada aleatoriamente e lutam em inúmeras salas de inimigos, coletando saques e subindo de nível enquanto progridem. Entre cada sala, você ganha uma vantagem que altera seu estilo de luta, dando aos golpes da sua maça dano extra ou adicionando dano de veneno às suas flechas. Às vezes, você encontra itens como poções de cura mágicas ou gemas que pode usar para reforçar os atributos do seu personagem ou aprimorar sua base principal. O que destaca MythForce totalmente dos outros jogos é ser retratado como um desenho dos anos 80, capturando a essência daquela era da animação. Todos os personagens, inimigos e itens que podem ser quebrados no mundo de MythForce são renderizados em gráficos com cel-shading, mas o mundo em si mais se parece com uma pintura de aquarela.
 

Para aventureiros mais jovens


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A ambientação única do jogo foi inspirada parcialmente pela experiência de vida das pessoas que o criaram. "Existem vários pais jovens na equipe", explica Rideout, e isso inclui o cofundador da Beamdog, Cameron Tofer. Tofer geralmente joga roguelikes com seus filhos, e ele cita o gênero como sendo um dos seus favoritos. Esse tipo de jogo pode ser ótimo para crianças porque se concentra em poder jogar várias vezes, além das sessões curtas, e isso permite que você conclua uma jogada em menos de uma hora. É um gênero em que parece que você está progredindo toda vez que joga, mesmo que só possa jogar um pouquinho. Porém, como Rideout coloca: "Historicamente, o gênero está repleto de jogos que são bem mais assustadores ou sangrentos." Ele diz que a equipe "queria criar algo adequado para famílias".

"Sempre fui meio nerd da animação e entusiasta da cultura pop dos anos 80, já que fui uma criança dos anos 80", diz Rideout. "Então levantei a ideia de retratar MythForce como uma ambientação de desenho de 'monstro da semana' dos anos 80. Essencialmente, os desenhos dos anos 80 são bem a cara dos videogames. Os heróis são quase super-heroicos, mas por causa das limitações da animação e dos rotoscópios, dá para se identificar com eles, até se inspirar neles, pois se movem e lutam como humanos. A animação dos anos 80 era muito menos frenética e bombástica do que a dos desenhos modernos. Ela se encaixou perfeitamente ao ritmo mais calculado e de 'Dungeons & Dragons em primeira pessoa' que queríamos."

A forma como a TV do sábado de manhã retrata aventuras de fantasia ofereceu imediatamente oportunidades à equipe. Eles sabiam que MythForce seria multijogador, e os jogadores precisariam ter papéis diferentes de personagens para escolher. A partir dessa necessidade, um cavaleiro, um mercenário, um caçador e um mago se tornaram escolhas óbvias. Embora sejam características padrão de aventuras de fantasia, os desenhos dos anos 80 não se distanciam de clássicos e clichês, e a Beamdog seguiu o mesmo rumo.

"É como se a ambientação nos desse as cartas", diz Rideout. "Foi a óptica pela qual olhamos para todas as nossas decisões." Entretanto, o estilo artístico dos anos 80 apresentou um desafio técnico para os artistas da Beamdog. "As Unreal Engine 4 e 5 não foram feitas para criar jogos que parecem com desenhos, então estávamos basicamente lutando contra o que a engine espera." Os artistas da MythForce "precisaram desaprender várias técnicas modernas convencionais" para criar modelos que trouxessem a tecnologia de cel-shading que a equipe tinha desenvolvido.
 

Como ser um herói


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Os limites autoimpostos pelo desenho estilo anos 80 também desafiaram a equipe. Embora tenha permitido à Beamdog se basear em clássicos familiares, isso também significava que não podiam se afastar muito do que é esperado que se passe na sua televisão em um sábado de manhã.

Tal qual os desenhos da época, como Thundercats e He-Man, MythForce é uma história otimista de trabalho em equipe, amizade e heroísmo. "Não queríamos criar algo que fosse uma paródia dos anos 80; em vez disso, queríamos algo que fosse uma homenagem para a década e os desenhos criados nela", diz Rideout. "Era imensamente importante que não olhássemos para o material fonte usando o cinismo com o qual ele é tão visto hoje em dia. Ao contrário, queríamos canalizar a seriedade das mentes criativas que fizeram aqueles desenhos."

Apesar de as infindáveis aventuras dos desenhos dos anos 80 se encaixarem muito bem na estrutura do gênero roguelike, transformar essas histórias em um videogame nem sempre deu totalmente certo. Com a televisão, você apenas observa, mas um jogo coloca você como motorista, algo ainda mais perceptível com uma perspectiva em primeira pessoa. Os jogadores podem abrir caminho por masmorras com centenas de inimigos em uma missão para derrotar o vampiro do mal, lorde Deadalus. Em uma única aventura, você pode facilmente chegar em uma contagem de corpos de esqueletos, cogumelos humanoides e homens-lagarto na casa das centenas. Se o jogador faz tudo isso, como ainda pode ser considerado um herói?

Foi essa pergunta que "guiou várias decisões de narrativa e de design de monstros", diz Rideout. De acordo com ele, a equipe teve que lutar contra o instinto de deixar o jogo "se tornar violento". É por isso que se diz que os inimigos que você enfrenta são criaturas feitas com uma magia maligna e, quando morrem, não ficam inertes no chão, mas desaparecem em uma poça de gosma luminosa ou em um clarão de magia roxa.

Essa tentativa de escapar da violência no centro de tantos roguelikes e adotar a postura piedosa dos heróis da TV dos anos 80 acabou apresentando uma solução a um problema de narrativa presente em tantos outros jogos. Em vários roguelikes, você encara e mata os mesmos chefes inúmeras vezes. E assim, toda vez que começa um jogo novo, eles revivem, e você os encontra de novo sem explicação de como voltaram à vida. Não é bem assim em MythForce. Como nos programas de TV a que o jogo faz referência, os personagens que você usa sempre são heróis. Conforme Rideout explica: "Eles não titubeiam; sempre mostram misericórdia. Os heróis nunca vão dar o golpe final porque não precisam, e quando os vilões são derrotados, eles escapam para serem malvados por mais um dia."

Nos desenhos dos sábados de manhã, faz sentido que os mesmos Decepticons desafiem os Autobots toda semana, que a Equipe Rocket sempre esteja por trás das tramas que atrapalham Ash em sua jornada para a Liga Pokémon, e que o Destruidor possa reagrupar suas forças para lutar contra as Tartarugas Ninja no futuro. Os heróis poderiam derrotar esses vilões de forma permanente, mas assim não seriam mais heróis. A equipe MythForce poderia matar o ajudante de Deadalus, Beastor, mas então não seriam os representantes do bem que precisam ser. Em vez disso, deixam ele caído no chão, mas livre para desafiá-los mais uma vez na próxima jogada roguelike através do seu reino da floresta.

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O gênero roguelike está em constante evolução, e suas mecânicas estão aparecendo em lugares inesperados. Exemplos disso incluem Wall World, um jogo que mistura Manic Miner e Missile Command, ou Against the Storm, um jogo de estratégia em tempo real onde o mundo inteiro é destruído anualmente, forçando você a reconstruir tudo do zero várias vezes. Jogos como MythForce permitem uma apreciação nova das mecânicas e clássicos ao reenquadrar o gênero em um novo cenário. Quem diria que tantas singularidades do gênero roguelike, desde seus chefes que nunca morrem até seus sucessos passageiros, poderiam todas ser explicadas aplicando a lógica da TV infantil dos anos 80?

MythForce 1.0 já está disponível na Epic Games Store. Enfrente vilões como Beastor the Brute, Hexstar the Dark Sorceress e o lorde vampiro do mal, Deadalus.