
Espaço para respirar: por que amamos sobreviver no espaço

Você já foi ao espaço? Se sim, você provavelmente está lendo este artigo como parte de um arquivo dos escritos humanos mais importantes já criados, armazenado em um banco de dados a bordo dos restos de sua nave. Porque se tem uma coisa que sabemos é que todas as viagens espaciais terminam em calamidade. (Curiosidade: eles não fingiram o pouso na Lua; eles fingiram o retorno para a Terra. Neil e Buzz ainda estão presos lá, fabricando bombas de oxigênio a partir de canos soltos e órgãos de vermes espaciais em uma longa tentativa de sobrevivência).
É por isso que não temos jogos sobre como é viajar com segurança para Marte, deixar os suprimentos necessários e depois voltar para casa sem problemas. Seria muito irreal. Então hoje vamos destacar os jogos que melhor representam as realidades das viagens estelares, das quais mal saímos vivos, enquanto nossos pôsteres do Matt Damon estão grudados nas paredes com fita adesiva.
Todos queremos uma aventura como Perdido em Marte
Claro, a referência para todos os jogos de sobrevivência espacial é Mark Watney no popular romance de Andy Weir, Perdido em Marte. No livro, esse herói moderno fica preso em Marte por um ano, e sua capacidade de improvisar uma fazenda de batatas ou construir um veículo todo-o-terreno (usando simplesmente uma embalagem de barra de chocolate e meia chave inglesa) é o que todos nós queremos imitar sempre que estamos jogando um jogo do gênero. E a comparação é séria; é impossível não pensar nas desventuras de Watney na superfície de Marte ao começar um jogo como Osiris: New Dawn ou Nibiru: Uncharted Planet. Se Watney conseguiu, nós também conseguimos, e nosso fiel rolo de fita adesiva pode nos levar até lá.
Esse é o espírito que dá início a muitos jogos de sobrevivência espacial.Osiris: New Dawn é um ótimo exemplo, apresentando um breve enredo de abertura que explica que várias expedições humanas para colonizar um planeta dentro do Sistema Estelar Gliese 581 resultaram na perda de todo o contato. Você está a bordo de uma nave de reabastecimento, a U.N.E. New Dawn, enviada para fornecer todos os suprimentos necessários à viagem de colonização de Phoenix caso os passageiros tenham sobrevivido. No entanto, algo dá errado em sua aproximação, o que termina com os restos de sua nave caindo na superfície. Imediatamente, você precisa selar um buraco em seu traje espacial e enfaixar feridas sem nem ter tempo para se recompor. Logo depois, você deve construir um abrigo para se proteger das mudanças brutais de temperatura.
As necessidades básicas são oxigênio, comida e abrigo, é claro, coisas que geralmente são escassas em um planeta alienígena. Felizmente, graças às suas habilidades parecidas com as de Watney, você quase imediatamente consegue criar oxigênio como subproduto da fundição que está realizando. Isso significa que você tem tempo suficiente para se concentrar em bater com sua picareta na cabeça de enormes feras parecidas com formigas e procurar minérios para consertar um veículo todo-o-terreno próximo.
Remains, outro exemplo disponível em acesso antecipado, começa de maneira semelhante, mas desta vez sem um planeta como base. Inicialmente, você está a bordo de sua nave, aprendendo o básico de como se mover em gravidade zero, coletando itens e fabricando, e então... CABUM! Sua nave explode e você fica à deriva, flutuando no espaço, com milhares de pedaços de destroços do que antes era sua casa ao seu redor. Mais uma vez, você imediatamente vai para a ação, flutuando e pegando o máximo que pode para começar a criar algum tipo de abrigo e, finalmente, uma nova nave. Mas oxigênio, curativos e comida ainda são a prioridade. Felizmente, o espaço ao seu redor contém quantidades quase infinitas de borracha, sucata e componentes, além de um número conveniente de tanques de O2 que podem ser reunidos para que você possa continuar respirando.
Em Remains, há um foco muito mais simples em evoluir através da fabricação, então você pode investir grandes quantidades de matérias-primas na pesquisa de novas receitas que, por sua vez, desbloqueiam novos itens para fabricar, que também revelam novas receitas e assim por diante. É um processo muito satisfatório. A coleta metódica de materiais garante uma sensação constante de progresso, e o objetivo final tangível de construir algum tipo de base mantém você sempre avançando.
Ou que tal Nibiru: Uncharted Planet, em que mais uma vez você cai em um mundo alienígena com as preocupações habituais de abrigo, oxigênio e comida, mas desta vez com armas logo de cara?! Como normalmente esse gênero é jogado em primeira pessoa, é surpreendentemente raro ter acesso imediato a armas poderosas e muita munição nesses jogos. Mas Nibiru é um jogo perigoso, e entre as muitas criaturas insetoides quitinosas e barulhentas que andam ao seu redor, algumas atacarão assim que virem você. É melhor se proteger, mesmo que não seja um bom primeiro contato.
Nibiru também é bastante único por apresentar um... amigo robô que dança, canta, ri e acompanha você durante a exploração. É um robô muito interessante, com sua risada perturbadora e ameaçadora, e serve como guia da sua jornada, embora com um diálogo peculiarmente traduzido dublado por uma IA. O jogo é bem maluco, trazendo uma abordagem peculiar ao gênero, mas oferece tudo o que você espera, desde a sobrevivência até a criação, e com mais combate do que normalmente vemos.
Respire fundo
Quando falamos de peculiaridade no espaço, não podemos nos esquecer de Breathedge. Pegue a esquisitice de Nibiru, coloque-a na falta de rumo flutuante de Remains, mas adicione a exploração de Osiris e você chega perto de Breathedge. Ou, para simplificar: Subnautica no espaço, mas com galinhas. "Tente não urinar em aparelhos elétricos ou fios desencapados, e também no jogo", diz uma das dicas da tela de carregamento. É um humor bem... simples, mas não falta diversão nesse jogo de sobrevivência. No ano de 2073, em algum lugar nos arredores do universo, nosso "herói" está entregando caixões quando sua nave explode (viu, acontece quase sempre!), e agora ele precisa tentar não ficar morto o máximo de tempo possível.
O que diferencia Breathedge dentro do gênero, além de um interesse perturbador por galinhas e cenouras, é como o suprimento de oxigênio é limitado. Inicialmente, você mal consegue sair por 75 segundos da cápsula de sobrevivência que no começo chamará de lar, restringindo muito a distância que você pode viajar. Nesse ponto, o jogo assume uma espécie de abordagem Metroidvania; a distância que você pode percorrer aumenta gradualmente à medida que você completa missões que recompensam melhorando seu suprimento de oxigênio. Quanto melhor, maior o raio que você pode explorar e mais o jogo se abre ao seu redor. Você nunca deixa de se preocupar com a respiração, pois cada melhoria significa que você está se afastando mais da segurança, mas suas habilidades e técnicas evoluem em um ritmo justo. Isso garante que você esteja sempre indo além para explorar mais e chegar ao próximo mistério.
Para quem busca uma variação mais intensa da temática, temos Occupy Mars, que mostra a que veio com sua primeira dica de carregamento, que diz como é mais fácil soldar placas de circuito por baixo do que por cima. Com essa única frase, você logo percebe que essa será uma versão muito mais detalhada da sobrevivência à vida fora da Terra. Embora Occupy Mars, disponível em acesso antecipado, não comece realmente com um desastre, isso não significa que você encontrará menos perigo. Desde o momento em que você pousa no planeta, você fica sabendo de quantas variáveis em sua interface podem levar à morte rápida. Fome, sede, ferimentos, radiação, privação de sono, eventos climáticos... É uma lista assustadora. Felizmente, você não está a sós em Marte e, embora seja um jogo sandbox de sobrevivência e colonização, há um extenso tutorial para apresentar os inúmeros sistemas do jogo.
Como engenheiro elétrico, você está envolvido em todas as partes da base de Marte, desde mexer na estufa para cultivar tomates melhores até a construção de um novo painel solar que produz mais energia para a base. Mesmo em condições ideais, a morte está à espreita em cada canto, como você logo descobrirá.
Occupy Mars pode fazer você se lembrar de Surviving Mars, não apenas por causa dos nomes parecidos, mas porque esse segundo jogo é um simulador de desenvolvimento de colônia, embora tenha uma abordagem muito mais estratégica. Publicado pelos gurus da estratégia da Paradox, o jogo traz um tipo totalmente diferente de sobrevivência: um construtor de cidades com todos os aspectos que você esperaria do gênero, mas com o detalhe bastante importante de que toda a sua colônia pode morrer a qualquer momento se algo der muito errado.
Toda a temática de Occupy Mars é que Marte realmente não é um planeta adequado para os humanos tentarem viver. Só que é o único perto o suficiente de nós onde podemos pousar de forma realista com tecnologia viável sem derreter ou explodir imediatamente. Não há ar, não há água, não há comida... coisas de que os humanos gostam muito. Possibilitar que as pessoas sobrevivam em Marte não é tarefa fácil, e esse é um jogo que permite que você consiga isso construindo uma cidade próspera. Mas mesmo quando a cidade está funcionando perfeitamente, com drones correndo para limpar e consertar, humanos chegando e vivendo alegremente, tudo pode desmoronar com uma rapidez alarmante, o que pode levar a um número terrível de mortes.
Occupy Mars foi lançado há cinco anos, e desde então os mesmos desenvolvedores criaram outro jogo que combina sobrevivência e estratégia chamado Stranded: Alien Dawn. Esse é um jogo muito mais intimista sobre como manter um grupo muito menor de sobreviventes vivos em um planeta alienígena muito mais hospitaleiro. O efeito é parecer ainda mais um simulador de sobrevivência, mesmo que você esteja jogando com a visão isométrica de um jogo de estratégia clássico e dando instruções ao trio de sobreviventes como se fossem unidades. Um excelente tutorial orienta você na abordagem prática que você terá com cada personagem, com o cuidado de demonstrar como cada um tem sua própria história, motivações e conjunto de habilidades.
A partir daí, você precisará gerenciar calamidades e, ao mesmo tempo, manter o bem-estar físico e emocional do seu grupo. Essa última parte é um aspecto que muitas vezes falta nos jogos de sobrevivência fora do mundo, embora seja frequentemente destacada em jogos semelhantes ambientados na Terra. (Pense em quantos jogos "terrestres" têm medidores de sanidade ou medo como uma condição que precisa ser equilibrada). É ótimo ver uma representação um pouco mais humana de nossos sobreviventes isolados.
Espaço: a segunda dimensão
À medida que exploramos alegremente os campos espaciais da sobrevivência fora do mundo, você perceberá que os jogos estão ficando mais movimentados: mais pessoas, menos isolamento, mas com a mesma probabilidade de dar errado. Isso nos leva a Oxygen Not Included. Desenvolvido pela Klei, que anteriormente nos fez sobreviver a situações mais mundanas (como a Terra selvagem em Don't Starve), esse é mais um simulador de colônia em que tudo pode desabar ao seu redor a qualquer momento. (Ou em um pouco mais de tempo se você optar pelo modo No Sweat — Sem Problemas).
Apesar de ser um jogo 2D com visão lateral no estilo desenho animado, ele começa de forma surpreendentemente semelhante a Occupy Mars. Você inicia com três personagens, cada um com traços e habilidades únicas, que você pode sortear novamente, se assim desejar. Mais uma vez, temos uma interface de estratégia que permite dar ordens para cada um deles enquanto você tenta garantir que tudo esteja funcionando e, com sorte, não esteja prestes a matar todos no local.
O gerenciamento de Oxygen Not Included fica incrivelmente complexo, indo do encanamento da rede de tubos da base ao monitoramento dos níveis de dióxido de carbono, e inclui até garantir que todos estejam com a saúde mental em dia por meio de entretenimento e descanso. E isso antes de começar a adicionar qualquer um dos vários DLCs (que inevitavelmente sempre terminam em sufocamento). Mas você sempre pode começar de novo!
Já que estamos falando de 2D, é hora de um dos grandes clássicos da sobrevivência espacial, FTL. Mais uma vez, temos uma tripulação pequena, uma nave bastante precária e muita galáxia para explorar. Mas, desta vez, o fracasso é ainda mais inevitável, e as tendências roguelite do jogo combinam o fracasso com um desejo desesperado de começar de novo e fazer melhor da próxima vez.
Em FTL, as coisas são muito mais simples do que nos exemplos estratégicos acima, mas isso não torna o jogo mais fácil. É um jogo sobre gerenciamento de riscos: decidir se você quer se jogar no próximo encontro pirata ou ir de forma segura e tentar chegar a uma loja espacial onde você possa reabastecer de forma mais legítima. Então, de repente, sua nave é invadida e você precisa se defender dentro dela, tendo que apagar incêndios sem apagar acidentalmente sua tripulação, tudo isso enquanto se odeia pela decisão anterior de investir em motores melhores em vez de aprimorar suas defesas.
Lançado em 2012, FTL realmente avançou o gênero roguelite para a vanguarda da última década dos jogos. Mais de dez anos depois, continua igualmente envolvente e sempre dá vontade de jogar mais. Podemos não conhecer nossa tripulação tão bem quanto na maioria dos outros jogos mencionados neste artigo, mas em FTL você cria um relacionamento profundo com sua nave. Como é possível fazer melhorias, você pode investir muito para aperfeiçoar a embarcação usada para explorar, tornando a despedida ainda mais traumática quando você perde tudo para sempre.
Isso naturalmente nos leva a Outer Wilds. Outer Wilds (não confundir com The Outer Worlds, o RPG da Obsidian estranhamente lançado no mesmo ano) leva o conceito roguelite de sobrevivência a outro patamar, colocando você em um loop temporal de 22 minutos. Esse reinício do dia significa que você precisa começar cada loop com ações principais em mente enquanto tenta descobrir os muitos mistérios de uma raça extinta chamada Nomai.
O conhecimento pode ser mantido entre os loops, o que é uma maneira esplêndida de reconhecer que você não tem cocos sempre atingindo sua cabeça entre cada reinício. Isso dá ao jogo uma sensação de progresso contínuo, ao contrário dos reinícios angustiantes (mas brilhantes) de FTL. No entanto, caso você pense que nos afastamos muito da missão original do caminho sagrado de Mark Watney, Outer Wilds mantém a preocupação com vida, combustível e oxigênio. Porque, no fim das contas, ainda é o espaço.
Preciso de abrigo
Falamos sobre uma enorme variedade de tipos de jogos aqui, desde jogos de fabricação em primeira pessoa a estratégia em tempo real com visão de cima para baixo e arcade roguelite, mas todos com a mesma premissa central: sobreviver no deserto do espaço. A grande questão é se podemos ter acesso a oxigênio e manter nossa saúde em tais circunstâncias extremas, seja qual for o gênero ou os aspectos únicos. Mas o que torna esse gênero tão interessante para desenvolvedores e jogadores?
Talvez seja a tendência constante de termos certos medidores que precisamos gerenciar. Seja uma barra de vida ou uma pontuação alta, um fator importante nos jogos é tentar manter esses medidores cheios, e sobreviver no espaço tem tudo a ver com isso. Suprimentos limitados e um desejo de sobreviver o máximo que pudermos. Essa é a essência do gênero de viagem espacial. Ora, com base nessa simplificação, poderíamos até classificar Space Invaders como o primeiro simulador de sobrevivência fora do mundo!
Mas também existe um fator mais profundo. A vida pode ser assustadora, até porque um dia ela vai acabar. Estamos sobrevivendo a todo momento. Temos nossos próprios medidores de fome, sede e saúde que precisamos manter, junto com outros para dinheiro, abrigo, sanidade e muito mais. E muitas vezes é difícil se sentir no controle, com tantos fatores além do nosso alcance drenando grandes pedaços de cada um desses medidores quase aleatoriamente. Portanto, em um jogo de sobrevivência, mesmo podendo fracassar com frequência, temos uma sensação muito maior de controle sobre nosso próprio destino.
Os jogos de sobrevivência simplificam esses medidores e reduzem a escala do que precisamos administrar. Mesmo quando são propositalmente tão difíceis que parece que estamos fadados ao fracasso, temos outra chance. Podemos aprender com o fracasso, fazer melhorias graduais e, apesar do espírito do gênero, nunca realmente morrer.
No mais, seguindo essa linha, os jogos de sobrevivência nos oferecem a capacidade de criar segurança. Enquanto flutuamos no espaço (a analogia mais evidente para nos sentirmos sem rumo ou à deriva na vida), recebemos tudo que é necessário para criar segurança. Se nos concentrarmos, ficarmos a salvo e reunirmos recursos suficientes, podemos construir nosso santuário; uma caverna protegida onde as ameaças espaciais não podem nos alcançar. Há algo psicologicamente reconfortante nesse processo que nos permite controlar o caos, mesmo que apenas dentro dos limites de um jogo específico.
A verdade é que todos adoraríamos ser Mark Watney. Talvez não isolados na superfície de Marte sem esperança de resgate por centenas de dias, é claro, mas adoraríamos ter o conjunto de habilidades e a imaginação para criar e consertar com tanta elegância. Na sobrevivência espacial, podemos ter esses momentos, seja ajudando uma colônia inteira a sobreviver a um desastre iminente ou simplesmente construindo um teto de plástico temporário sobre a cabeça de nosso personagem solitário.