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A ascensão dos jogos aconchegantes

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Dave Tach
24 de nov. de 2025

No início de 2020, milhões de pessoas se mudaram para uma pequena ilha saturada de cores vibrantes, povoada por vizinhos alegres e que oferecia aos habitantes vínculos acolhedores e a chance de levar vidas pitorescas e bucólicas que contrastavam de forma marcante com o caos que se instalava no mundo. 

Enquanto os governos decretavam ordens de confinamento na vida real, jogadores de todo o mundo construíam suas novas casas virtuais em Animal Crossing: New Horizons. Lançado em 20 de março de 2020, o jogo essencialmente aconchegante da Nintendo ofereceu um alívio oportuno da pandemia de COVID-19 lá fora. Já no lançamento, Animal Crossing: New Horizons tornou-se o título de Nintendo Switch mais vendido de todos os tempos. 

Esse não foi o primeiro jogo do gênero, mas gerou uma maré enorme que elevou todo o gênero com ela. A popularidade avassaladora do título da Nintendo, em um momento muito específico da história, inseriu não só a expressão “cozy gaming”, mas também seus conceitos de jogabilidade no imaginário popular de forma mais profunda do que qualquer esforço anterior. 
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E, ao menos por um tempo, nos primeiros dias da pandemia, os jogos aconchegantes chegaram até a mudar a conversa cultural sobre videogames — dos supostos perigos de jogos violentos para os benefícios de experiências mais tranquilas — segundo a dra. Rachel Kowert, psicóloga e pesquisadora que estuda o uso e os efeitos de jogos de videogame há aproximadamente 15 anos.

"Lembro de uma revista para pais que publicou uma matéria especial que estimulava os pais a jogarem videogames com seus filhos. Então pensei: 'Não acredito, eles estão recomendando jogar videogames?!'"

A dra. Kowert tem se dedicado profissionalmente à confiança, à segurança e ao uso de videogames para a saúde mental. Ela conhece bem essa aparente discussão interminável entre pais e filhos, em meio à experiência cotidiana real dos jogadores em contraste com a representação dela na mídia, por vezes sensacionalista. No entanto, em 2020, alguns valores relacionados ao que os videogames poderiam significar começaram a ser reconsiderados. 

"Ao ler uma revista para pais recomendando jogar videogames e mencionando Animal Crossing, me perguntei se eles já não sabiam da existência desse tipo de jogo. Parecia que todo mundo só pensava em Grand Theft Auto e Call of Duty." 

Antes de Animal Crossing: New Horizons colocar o gênero em destaque, já havia alguns referentes do gênero aconchegante, também conhecido como cozy, como Donut County do desenvolvedor Ben Esposito, The Sims 4 da Maxis e Stardew Valley da ConcernedApe.

Nos anos seguintes, houve uma verdadeira explosão de jogos aconchegantes. Nesses mundos com ambientes cheios de vida, entre cores quentes e paisagens sonoras relaxantes, os jogadores podem passear no seu próprio ritmo, trocando ação por lazer. Entre os jogos aconchegantes recentes estão Strange Horticulture e Strange Antiquities da Bad Viking, Bear and Breakfast da Gummy Cat e Cosmic Coop da Omnivorian. A tendência deve continuar com próximos lançamentos como Universe for Sale da Tmesis Studio e Outbound da Square Glade Games. Até mesmo Animal Crossing: New Horizons está recebendo atualizações importantes, quase seis anos após seu lançamento. 

Conversamos com desenvolvedores de jogos aconchegantes sobre o que torna um jogo aconchegante, por que as pessoas gostam desse tipo de jogo, por que eles próprios gostavam e queriam criá-los, como criar algo aconchegante sem ser entediante e sobre o futuro do gênero.
Jogos aconchegantes — Donut County 2

Uma breve história dos jogos aconchegantes


Possivelmente, as pessoas já jogavam jogos aconchegantes há décadas antes dessa recente popularização, mas o termo aconchegante, que vem do inglês cozy, ganhou força na última década em sites como o Reddit, onde as pessoas perguntavam sobre jogos aconchegantes para jogar quando estavam doentes. 

Embora pareça perdido na história da internet exatamente quando e onde o termo se tornou sinônimo de um certo tipo de jogo, sua etimologia guarda semelhança notável com um termo literário que compartilha muitas características com suas contrapartes nos videogames. Como um subgênero dos romances policiais, os mistérios aconchegantes não incluem sangue, violência nem sexo em suas páginas e cenas. Em vez de se aprofundar nos detalhes sórdidos, a narrativa tende a dar protagonismo a pessoas comuns que resolvem problemas. 

O livro Assassinato na Casa do Pastor, da Agatha Christie, é um dos pioneiros desse estilo. É o primeiro romance protagonizado por Miss Marple, uma detetive amadora que reside na bucólica vila inglesa de St. Mary Mead. Quem tem mais idade também se lembrará da Jessica Fletcher, uma escritora de mistério e detetive amadora protagonista da série de TV Assassinato por Escrito, no ar por mais de uma década. 

Assim como seus primos homônimos, os jogos aconchegantes têm muito em comum com outros jogos, mas tendem a oferecer uma lente mais suave para experimentar um meio frequentemente focado em ação, construído sobre desafio e dificuldade. Os jogos aconchegantes abrangem uma ampla gama de situações, da gestão agrícola de Farming Simulator 25 até os quebra-cabeças de Botany Manor, passando pela simples satisfação das necessidades cotidianas, que remonta àquele jogo pioneiro de 1985 sobre simulação social e de vida da Activision, Little Computer People
Jogos aconchegantes — Bear and Breakfast 1
Os jogos aconchegantes são versáteis, flexíveis e variados. Como apontou Kyle Keersemaker, criador de Cosmic Coop, "é menos sobre gênero e mais sobre sensação". Identificar um jogo aconchegante acaba lembrando a infame definição do juiz Potter Stewart, da Suprema Corte dos Estados Unidos: "você sabe quando vê". 

Embora valioso, esse critério não funciona muito para definir um gênero, em comparação com as convenções firmemente estabelecidas dos jogos de tiro em primeira pessoa, por exemplo. De acordo com a pesquisa da dra. Rachel, no entanto, há três elementos que descrevem o gênero aconchegante.

"O primeiro é a sensação de segurança. Ou seja, dão uma sensação de inclusão que gera confiabilidade, familiaridade e repetição, pois você sabe o que está por vir, o que reforça essa sensação de segurança. A abundância é o segundo elemento, porque as necessidades básicas são atendidas e facilmente alcançáveis nesses jogos. Dá para ver isso claramente em Animal Crossing, por exemplo. Não é necessário nada para sobreviver, as árvores são facilmente acessíveis. Elas já estão na ilha quando você chega. E o último é a suavidade, por meio de estímulos suaves e reconfortantes, como uma boa música. Tem coisa mais agradável que isso? Longe de um jogo de terror, a experiência traz cores vivas e uma trilha sonora relaxante."

Podemos ver que os jogos aconchegantes são diferenciados. Em geral, eles não vêm à mente quando alguém fala de videogames, e isso é visível até mesmo nas pessoas que jogam e desenvolvem esses títulos. 

Então, como criar um jogo aconchegante se o gênero é essencialmente diferente dos outros jogos? De acordo com os demais desenvolvedores que entrevistamos, existem várias metas comuns, como a atmosfera, o ritmo e a busca de um tipo específico de emoção.
Jogos aconchegantes — Outbound 1
 

Ritmo tranquilo


No final do filme Alien, do Ridley Scott, quando o sanguinário Xenomorfo está à solta, a tripulação sobrevivente da Nostromo entra em pânico e faz o impensável: aciona o botão de autodestruição da nave espacial. Inúmeros videogames, de Deathloop a Outer Wilds, passando por Fortnite e Vampire Survivors, têm utilizado o mesmo recurso consagrado para infundir um sentimento repentino de urgência na narrativa. 

Mas e os jogos aconchegantes? Não seria o caso. Na verdade, isso é basicamente um anátema para a fórmula. 

Em uma entrevista por e-mail com os irmãos Rob e John Donkin da Bad Viking, desenvolvedores de Strange Antiquities e Strange Horticulture, comentaram que a falta de ênfase no tempo é um componente essencial dos jogos aconchegantes. 

"Para nós, os jogos aconchegantes permitem que você jogue no seu próprio ritmo, sem cronômetros nem pressão. São jogos que permitem pensar e respirar. A essência é essa sensação tranquila de concentração, em que os jogadores podem desacelerar, observar e apreciar as pequenas coisas."

Zeno Colangelo, o diretor de arte de Universe for Sale, tem uma opinião semelhante e acrescenta que a desaceleração produz um estado emocional diferente, em comparação com os jogos de ação, por exemplo. 

"Um jogo aconchegante permite que você exista em um lugar, sem pressa, onde a curiosidade substitui a pressão. O importante é a atmosfera, a intimidade e a segurança emocional, em vez da dificuldade ou do desafio."
Jogos aconchegantes — Cosmic Coop 1
Para Kyle, o desenvolvedor de Cosmic Coop, os jogos aconchegantes são como um cobertor digital quentinho, e os jogadores podem até mesmo replicar na vida real a atitude do gênero. 

"Para mim, os jogos aconchegantes têm a ver com desacelerar. Geralmente, eles apresentam pouco ou nenhum combate e priorizam a criatividade, a comunidade e o conforto. Dá para jogar confortavelmente no sofá ou na cama, sem se preocupar com o trabalho, a escola ou qualquer outra coisa que esteja incomodando no mundo real." 

Tobias Schnackenberg, codiretor de estúdio da desenvolvedora Square Glade Games, cofundada por Marc Volger, disse que o que vem na sua mente é "pressão zero", ao pensar em jogos aconchegantes como o próximo lançamento do estúdio, Outbound

"Para mim, um jogo é aconchegante quando não tem uma força externa me pressionando em uma determinada direção ou me estressando. Acho que os jogos aconchegantes estão aí principalmente para relaxar. Um jogo aconchegante oferece a liberdade de escolher um ritmo próprio, seja para explorar, decorar, reunir recursos ou simplesmente existir no mundo por um momento. A ideia é se sentir seguro, sem nada de pressa." 

Ou seja, esses jogos contrastam bastante com muitos de seus contemporâneos. Eles dão aos jogadores a liberdade de explorar sem qualquer pressão, o que por si só já cria um ambiente relaxante. No entanto, como criar um ciclo narrativo satisfatório, que desperte o interesse dos jogadores, sem a ameaça da morte e dos perigos? O Kyle, da Omnivorian, também deu a sua opinião a respeito. 

"Esse tem sido um dos meus maiores desafios como desenvolvedor independente. A estrutura deve ser adequada para manter os jogadores motivados, dando a dose certa de liberdade para que eles se expressem."

Parece que a solução geralmente começa com o design visual, que se torna uma espécie de boas-vindas aos jogadores. 
Jogos aconchegantes — Strange Antiquities 2
 

Elaboração do aconchego


Em vez daquela ilusão de poder dos jogos de ação, como aquela sensação de que só eu posso salvar o mundo dos invasores alienígenas malignos, os jogos aconchegantes criam uma experiência mais tranquila e relaxante de propósito.

Isso é o que se pode chamar de uma verdadeira atmosfera de jogo, criar um mundo para os jogadores habitarem. Os jogos aconchegantes geralmente apresentam cenários idílicos, com os tons quentes de marrom e laranja típicos do outono. Os mundos aconchegantes devem ser acolhedores e atraentes, não hostis e desagradáveis, como explicam os irmãos Donkin da Bad Viking. 

"A atmosfera e a vibra são essenciais para a gente. Nosso objetivo é criar mundos com uma marca forte de tempo e lugar, em que os jogadores possam mergulhar e se sentir em casa." 

Regressemos ao anteriormente mencionado jogo de mundo aberto Outbound, da Square Glade Games, que será lançado em breve. O centro de tudo será um trailer de camping. Os jogadores exploram, encontram e coletam materiais, além de aprimorar sua casa móvel. Tobias, o codiretor, comentou que cada faceta do mundo 3D que criaram foi para proporcionar o máximo de aconchego, das cores até as formas suaves. 

"Somos muito exigentes quando o assunto é cor. Outbound segue uma paleta de cores bem específica, que cria uma aparência coesa e consistente em todo o mundo do jogo. Acho que essa harmonia visual contribui bastante para a sensação de aconchego, porque, assim como em uma casa, a sensação de estrutura e claridade torna um ambiente seguro e reconfortante. As formas e os designs do jogo também são intencionalmente suaves e acessíveis. Evitamos contrastes acentuados ou detalhes excessivamente nítidos. Nos concentramos nos tons quentes, na iluminação suave e nos materiais naturais. Tudo nesse mundo deve ser agradável, digno de contemplar e vivenciar."
Jogos aconchegantes — Strange Horticulture 1
O Kyle, da Omnivorian, adota uma abordagem semelhante para criar designs acolhedores e convidativos com seus sprites. Em seu já mencionado próximo jogo, Cosmic Coop, não haverá combate, mas sim muitas opções para decorar a fazenda e assim atrair os adoráveis alienígenas chamados Critterlings. 

"Cosmic Coop utiliza uma pixel art simples e colorida para criar um mundo alegre e atraente. A cor é fundamental no design: os moradores Critterlings transbordam vida, enquanto os visitantes permanecem discretos até decidirem se instalar, tornando a sua fazenda naturalmente mais colorida à medida que você avança."

Kyle também nos revelou que Cosmic Coop inclui um total de cinco anos de missões no mundo do jogo, que sucedem naturalmente ao jogar, além de uma grande variedade de decorações para a fazenda e o interior da casa dos jogadores. Também disse que é provável que os jogadores passem horas só no planejamento e personalização dos espaços, após desbloquearem novos móveis e itens. "Essa liberdade criativa é o que mantém o interesse, sem afetar o fluxo aconchegante."

Na mesma sintonia, Zeno, o diretor de arte de Universe for Sale, disse que os jogadores sentirão um grande aconchego com a calidez da luz, do som e do ritmo desse jogo desenhado à mão, que em breve será lançado pela Tmesis Studio.

Universe for Sale ocorre sob as nuvens de Júpiter, em um bazar que é um ponto de encontro para viajantes cósmicos, onde uma jovem misteriosa comercializa universos artesanais. A jogabilidade inclui ouvir conversas, reagir com gestos e observar coisas familiares e estranhas. Zeno afirmou que o toque acolhedor não está em evitar a melancolia, mas sim em tratá-la com delicadeza, encontrando aconchego na lentidão e na imperfeição. 

"As cores quentes evocam uma sensação nostálgica de tranquilidade. Criamos cada local para envolver delicadamente o jogador em um mundo que se sente complexo e vivo, sem ser excessivo. A música faz lembrar daquele barulhinho bom de ventilador em uma noite de verão. Procuramos que cada quadro pareça habitado e imperfeito, como se esse mundo tivesse uma pulsação própria. Quisemos que a experiência de jogar fosse semelhante à de ler um livro em uma tarde chuvosa, bebendo uma xícara de chá, algo bem calmo, íntimo e reconfortante."

Por outro lado, Strange Antiquities e Strange Horticulture, da Bad Viking, se afastam dessa típica atmosfera acolhedora, servindo como bons exemplos da adaptabilidade do gênero. Em ambos os jogos, você é atendente de loja na sombria cidade de Undermere, inspirada na era vitoriana. Como uma espécie de detetive, você deve descobrir e identificar artefatos e plantas raras, resolver quebra-cabeças e utilizar seu conhecimento acumulado para auxiliar os moradores locais. Seus criadores explicam que sobre o tom acolhedor paira uma atmosfera inquietante, em meio a uma narrativa sombria que se desenrola fora da loja. 
Jogos aconchegantes — Universe for Sale 1
 

Som agradável


Se o objetivo visual do gênero é proporcionar aos jogadores um local confortável para relaxar, o áudio vem a reforçar isso. 

O Tobias, codiretor da Square Glade Games e criador de Outbound, em que os jogadores vivem em trailers, considera o áudio um componente essencial. E com isso se refere tanto aos sons do ambiente quanto à música. 

"Usamos vários sons naturais, como pássaros, vento e farfalhar de árvores. Esses sons ajudam a ancorar o jogador e criar a sensação de estar ao ar livre em um ambiente calmo e tranquilo. A música clássica surge nos momentos certos para reforçar esse clima, sem sobrecarregar a experiência."

O desenvolvedor de Donut County, Ben Esposito, considera a trilha sonora do seu jogo como um elemento de coesão. O jogador assume o papel de um guaxinim que causa estragos nas cidades ao abrir buracos no solo. Ao colocar alguma coisa dentro de um buraco, ele fica maior e você ganha prêmios. Não tem como perder e há muito caos para espalhar. 

"Tudo está interligado pela trilha sonora extremamente relaxante do Daniel Koestner, que inclusive nos inspirou em vários momentos. A música dele usa principalmente amostras que ele mesmo cria, o que dá texturas e toques super artesanais para o jogo. Acho que isso realça a personalidade, em todos os detalhes do jogo. Convido vocês a acharem e apreciarem as encantadoras imperfeições desse processo artesanal!" 

No caso do desenvolvedor Kyle, a sua ansiedade por outro lançamento de Viva Piñata foi o motor que criou Cosmic Coop. O resultado foi um áudio de jogo que evoca as sensações que o clássico jogo aconchegante da desenvolvedora Rare lhe proporcionou. 

"O som tem um papel fundamental. Os Critterlings emitem sinais sonoros únicos, em função da personalidade de cada um. A música é bem excêntrica, sem perder a suavidade necessária para permanecer em segundo plano. O compositor Simon Wood fez um ótimo trabalho ao capturar esse equilíbrio. Meu objetivo era recriar a mesma alegria descontraída que sentia ao jogar Viva Piñata anos atrás."

Para os títulos da Bad Viking, a expectativa, segundo os irmãos Donkin, foi criar um ambiente acolhedor e vívido. 

"A gente quis criar uma atmosfera harmoniosa: as ilustrações texturizadas desenhadas à mão e a trilha sonora minimalista de caráter melancólico, misterioso e contemplativo funcionam como uma coisa só." 
Jogos aconchegantes — Bear and Breakfast 2
 

A vibe irresistível dos jogos aconchegantes


A questão permanece: por que as pessoas gostam dos jogos aconchegantes? E a resposta, pelo menos em parte, está na psicologia. 

Muitos videogames buscam a ação e o combate como guias, de Arc Raiders até Zenless Zone Zero. Mas é claro que isso não se aplica a todos os jogos. A lista de mais vendidos das lojas online inclui uma mistura de títulos de ação, como Battlefield 6 e Borderlands 4, esportivos, como EA SPORTS FC 26 e Madden NFL 26, e de simulação, como Cities: Skylines. No entanto, com a exceção dos dispositivos móveis, a maior parte dessas listas em consoles e PC está mais inclinada a títulos como God of War do que Paciência.

Então, o que atrai os jogadores para o caminho alternativo dos jogos aconchegantes? 

Em consonância com as já mencionadas palavras da dra. Rachel sobre segurança, Rares Cinteza, colíder e diretor de design da Gummy Cat, desenvolvedora do Bear and Breakfast, relembra a sua formação na área, em especial a sensação que sentia com os jogos aconchegantes. 

"Para mim, Rares, um jogo aconchegante faz a gente sentir que estamos revivendo algumas das melhores e mais íntimas lembranças da nossa infância. Isso dá aquela sensação de segurança e de engajamento. Eu acho difícil sentir uma sem a outra, pelo menos para manter uma experiência imersiva perdurável. Ao me sentir seguro ou confortável, me permito ser absorvido pelo mundo que estou experimentando e fico mais aberto a acreditar no que vejo, sejam personagens, histórias ou jogabilidades." 

Na opinião do Tobias, da Square Glade Games, os jogos aconchegantes são uma forma de aliviar o estresse, por isso ele acredita que trazem benefícios à saúde mental. 

"Acredito que muitos jogadores buscam algo para relaxar após um dia pesado de trabalho. Participar de um jogo que exige muita concentração ou que é excessivamente competitivo pode não estar no radar. Às vezes, o que queremos é só relaxar mesmo".

Tobias também acha que os jogos aconchegantes melhoram a saúde mental, pois proporcionam um espaço seguro e reconfortante para descansar. Os jogos aconchegantes permitem desacelerar e aproveitar os pequenos momentos, segundo o codiretor da Square Glade Games. Explicou que proporcionam a liberdade de realizar as tarefas no próprio ritmo, sem pressão nem expectativas. "Isso pode ser extremamente revigorante, especialmente quando a vida cotidiana é acelerada, exigente ou estressante."

Da mesma forma, mas na área da psicologia, a dra. Rachel corrobora essa perspectiva citando pesquisas sobre experiências documentadas cientificamente. 

Relembrou muitos casos em que muita gente associa claramente os jogos aconchegantes a resultados positivos na saúde mental. Na sua opinião, as pessoas percebem que esses são os jogos que devem jogar se querem se sentir de bem com a vida. 

A dra. Rachel também analisou a jogabilidade aparentemente comum desses jogos aconchegantes como um complemento positivo às nossas necessidades psicológicas básicas. 

"Em geral, gosto de citar a teoria da autodeterminação. É uma teoria sobre a motivação humana. Ela considera que todas as ações dos seres humanos são motivadas pelos desejos de se sentirem autônomos, de tomarem suas próprias decisões, de alcançarem alguma coisa e de se sentirem conectados com outras pessoas. Por si só, os jogos geralmente são bons nisso, mas Animal Crossing é um exemplo que supera a média, pois a afinidade e os relacionamentos parassociais estabelecidos com os habitantes de Animal Crossing foram muito bem elaborados." 
Jogos aconchegantes — Universe for Sale 2
Os pesquisadores, segundo a dra., tendem a determinar esses resultados por meio de estudos sobre diários, nos quais os participantes são solicitados a escrever como se sentem antes e depois de jogar um jogo. No caso dos jogos aconchegantes, tais estudos demonstram uma tendência de que os jogadores se sintam relaxados. 

Rachel falou sobre algumas variáveis, como a sensação de teletransporte, em que o sujeito se sente transportado para outro lugar onde tudo é menos estressante, mais alegre e feliz. 

Também mencionou os benefícios psicológicos de passar um tempo em um ambiente acolhedor, livre de pressões intensas. 

"Ninguém está atrás de você, o que gera a sensação de relaxamento. Você pode respirar fundo. Toda a concentração vai para o que você está fazendo no momento, que é agradável e prazeroso, com trilhas sonoras boas e cores vibrantes. Você deixa de lado o que acontece ao redor." 

Ela também foi incisiva ao afirmar que os jogos aconchegantes não são terapêuticos em si.

É certo que ela os considera como um excelente gênero para melhorar o humor. Porém, alertou que os jogos aconchegantes não são terapia, mas sim ferramentas terapêuticas, e que, como tal, são um excelente gênero a ser analisado. Ao analisar o impacto da mídia em nossa vida, mais especificamente dos jogos, destacou a importância de refletir sobre como impactam no controle do humor, no sentimento de pertencimento e na capacidade de relaxar após um dia estressante.

A psicóloga citou vários estudos que fundamentaram sua opinião científica. Por outro lado, a experiência dos jogadores e desenvolvedores dos jogos aconchegantes parece ir na mesma direção. 

Kyle, o criador de Cosmic Coop, opinou que os jogos aconchegantes proporcionam uma sensação de tranquilidade que muitos desejam. Fazendo referência a uma vida que pode ser estressante, Kyle vê nos jogos uma pequena fuga, um lugar para relaxar, decorar e criar ao próprio ritmo.

Tais conceitos que se derivam da emoção positiva de vivenciar jogos aconchegantes surgiram repetidamente em nossas conversas com os desenvolvedores. Por exemplo, para os irmãos Donkin, da Bad Viking, isso ajuda a explicar por que os jogos aconchegantes se tornaram populares na era pós-COVID. 

"Os jogos aconchegantes realmente se popularizaram nos últimos anos, como parte de um antídoto para o estresse da vida cotidiana. Eles oferecem uma maneira segura e produtiva para relaxar e escapar das pressões exaustivas e agitadas da vida moderna. Por serem mais lentos, silenciosos e ponderados, dão aos jogadores um propósito, sem estresse. Adoramos a forma como os jogos aconchegantes nos permitem existir em outro lugar por um tempo. Não só jogamos, mas também os habitamos. Dá para se entregar ao ritual, se deixar levar pelo ambiente e viver uma fantasia com a simulação."
Jogos aconchegantes — Cosmic Coop 2
 

O que os jogos aconchegantes não são 


Também conversamos com a conhecida influencer Jenny Windom, que transformou sua paixão pelo gênero em carreira. Como o rosto visível nas redes da Wholesome Games, ela divulga novidades em apresentações anuais que incluem jogos inspiradores que, na opinião dela, enfatizam a alegria, a esperança, o prazer e a transformação de momentos e atividades cotidianas em experiências mágicas. 

Ao conversar com esses grandes desenvolvedores, percebemos alguns vieses. Embora os jogos aconchegantes tenham crescido em popularidade, ainda há muitos mitos errados sobre eles. Por exemplo, a própria Jenny falou sobre a suposta ideia de que são todos fáceis e simples.

"Tem algumas ideias erradas que eu escuto por aí. Uma delas é que os jogos aconchegantes não são jogos de verdade. Isso é bem frustrante por diversos motivos. Nos jogos, tem certos tipos de dificuldade que são considerados mais válidos que outros. Acho que isso está associado a um desprezo pelas mecânicas e estilos que costumam ser vistos como mais femininos. Os jogos aconchegantes são jogos sim, e ponto." 

A dra. Rachel também notou que a dificuldade percebida dos jogos aconchegantes leva a mal-entendidos. 

"As pessoas acham que os jogos aconchegantes são para meninas. Dizem isso por acharem que são jogos fáceis. Mas eu nunca diria que Stardew Valley é fácil. Pescar nesse jogo é todo um desafio!".

A linguagem visual acolhedora parece funcionar tanto a favor quanto contra o gênero. Os desenvolvedores que entrevistamos apontaram que alguns confundem design visual simples com simplicidade na jogabilidade. 

O Rares, diretor de design de Bear and Breakfast, por exemplo, considera que há uma razão para as pessoas tenderem a rotular os jogos aconchegantes como jogos infantis, considerando essas experiências simplistas e carentes de profundidade, como os conteúdos para crianças. "Embora a arte desses jogos seja muitas vezes incrível, avaliar e supor como são os jogos aconchegantes apenas pelo que se vê é o caminho mais fácil." 

Também o Zeno, da Tmesis Studio, observou que o termo jogo aconchegante, ou cozy game, é frequentemente mal interpretado como sinônimo de experiências simples ou superficiais. 

"Na prática, é comum ver jogos aconchegantes lidando com emoções e estruturas bem complexas, encontrando significado em movimentos sutis sob um ritmo tranquilo. Eu acho que os melhores títulos usam a serenidade como uma forma de profundidade: sob uma superfície aparentemente calma, tem muita emoção, intenção e destreza em ação."
Jogos aconchegantes — Strange Antiquities 1
O Tobias, desenvolvedor de Outbound, concorda com essa visão geral, argumentando que os jogos aconchegantes podem proporcionar profundidade sem estresse. 

"Muitas pessoas também presumem que os jogos aconchegantes são fáceis ou simples por natureza, mas não é sempre assim. Eles podem ter mecânicas e progressões bem complexas, sem deixar o jogador estressado. O design dos jogos aconchegantes também tem a ver com criar interações significativas sem criar desafios excessivos."

Na opinião do Kyle, desenvolvedor de Cosmic Coop, algumas pessoas tendem a criar uma falsa dicotomia que cria uma falsa sensação de que os jogadores devem escolher só um tipo de jogo. 

"Tem gente achando que os jogos aconchegantes são lentos ou simples demais, mas isso está errado. Apenas são pensados para dar um tipo diferente de satisfação. Eu costumava passar horas jogando Diablo II e Quake e, por outro lado, gostava de relaxar com um jogo mais tranquilo quando queria fugir da intensidade ou quando meus amigos estavam offline."

Os irmãos Donkin, da Bad Viking, apresentaram uma refutação elegante e sucinta às críticas.

"Algumas pessoas dizem que o gênero é insosso ou carente de profundidade. O que é sem graça para alguns pode ser um prazer para outros."

Alguns desenvolvedores do gênero usam o seu trabalho para refutar essas ideias, como é o caso da Jenny da Wholesome Games. 

"Em um nível mais filosófico, um dos meus objetivos é que a nossa presença com a Wholesome Games leve os desenvolvedores, editores e jogadores a pensarem nos jogos de uma maneira um pouco diferente. Minha ideia é que reflitamos juntos sobre o que presumimos que as pessoas querem jogar, o que sempre oferecemos e o que sempre desprezamos ou subestimamos." 
Jogos aconchegantes — Donut County 1
 

O futuro dos jogos aconchegantes


O mundo dos jogos aconchegantes está em expansão. Além disso, também está em plena evolução. Os desenvolvedores entrevistados apresentaram ideias interessantes sobre o futuro, como o Kyle, da Omnivorian.

"Acho que os jogos aconchegantes continuarão evoluindo em direção às experiências mais sociais e cooperativas. Os jogadores adoram se divertir juntos em mundos livres de estresse, então os recursos de cooperação e chat de voz se tornarão partes essenciais do gênero. Estamos entrando em uma era bem empolgante. A experiência aconchegante já não implica estar sozinho, já dá para compartilhar o aconchego com os amigos."

Os irmãos Donkin já começaram essa expansão dos limites do gênero com seus jogos sombrios e inspirados na era vitoriana: Strange Antiquities e Strange Horticulture. Gostariam de ver outras pessoas fazendo isso. 

"Tomara que mais jogos explorem como o aconchego pode coexistir com a tensão e a melancolia, inclusive com o medo, para brincar com a expectativa dos jogadores. Esperamos que os desenvolvedores do gênero não hesitem em criar jogos que nos desafiem a pensar. Uma boa parte do nosso mundo moderno é sobre facilitar a vida das pessoas. Jogos aconchegantes, sombrios e instigantes: é isso que esperamos ver."

E quando o desenvolvedor de Outbound, Tobias, olha para o futuro, ele vê o passado como uma âncora. Afinal, uma grande parte do futuro é construída sobre os alicerces que tornaram o passado popular. 

"Acho que vamos ver mais jogos aconchegantes permitindo que os jogadores se expressem, construam seus próprios espaços e moldem o mundo ao redor. Vejo esse forte desejo nos jogadores de ter um local para simplesmente estar, sem pressão nem competição."